Diário Digital - 17 Dez 03

Tão novos que nós somos
João Vacas

"Abraham Lincoln recognized that we could not survive as a free land when some men could decide that others were not fit to be free and should therefore be slaves. Likewise, we cannot survive as a free nation when some men decide that others are not fit to live and should be abandoned to abortion or infanticide. My Administration is dedicated to the preservation of America as a free land, and there is no cause more important for preserving that freedom than affirming the transcendent right to life of all human beings, the right without which no other rights have any meaning."
Ronald Reagan
Nas últimas semanas, o Portugal mediático tem registado o aparecimento e a afirmação de uma espécie político-jornalística. Nova direita, de seu nome.

Pensava-se que a novidade, repetidamente auto-propalada, versasse sobre pensamentos, políticas, reformas ou medidas. Que envolvesse algum contributo meritório para o esforço envolvido no estudo e condução de algumas matérias. Que, em suma, valesse a pena perder algum tempo com ela. Mas parece que não.

O que mais a distingue da outra, da que dizem velha e relha, são duas coisas: a droga e o aborto. Ao que parece, esta direita é a favor de ambas. Porque sim. Porque são coisas que existem e não tem ela, nem temos nós (segundo ela), nada com isso. Quem quiser que se drogue e que aborte. A expensas próprias, claro está, que um Estado pagador não quadra nunca a quem o quer mínimo, se não inexistente.

Aos seus olhos, isso é o que significa ser arejado. Moderno. Objectivo. Descomplexado. Afirmativo. Fresco. Novo. Liberal, enfim.

Todos os outros são fundamentalistas. Pobres fanáticos, iluminados, neo-nazis [de "botas engraxadas e capelo rapado"(sic)]. Uma mole torpe e insana de trogloditas a quem o Senhor não cumulou com as boas virtudes da temperança e da clarividência e afastou do recto caminho da crença absoluta no individualismo e no império do mercado.

Com tamanha fixação no combate aos valores dos avós, tidos por bolorentos, desactualizados e ridículos, é caso para perguntar se não serão estes arremedos de redentismo doutrinário - agora propagandeados até à náusea - idênticos em tudo aos impulsos e ao berreiro "anti-pais" dos nossos soixante-huitards de trazer por casa. Valerá a pena o estudo comparativo.

Enquanto a esquerda abortista faz reflectir o desprezo pelo direito à vida (sem cuidar que protege a parte mais forte, ou menos fraca), esta direita transporta para este quadro o seu maior dogma: a livre iniciativa (sem atender a que o limite da liberdade é a liberdade e, por isso, a vida do outro). Duas visões, partindo de posições antagónicas, chegam à mesmíssima conclusão. Curioso, no mínimo. Paradoxos de quem esquece a necessária busca do bem comum, nega a existência de valores civilizacionais que cabe à res publica defender e procura federar minorias, tendências e apetites.

Facilmente reconhecível nos romances de Charles Dickens e nas mais absurdas caricaturas marxistas da burguesia, esta direita (que se diz nova) é a que a tem a expressão "it´s none of my business" na ponta da língua.

A mesma para quem o Estado deve ser acepticamente amoral, higienicamente descomprometido, cirurgicamente desinteressado.

A do cada um por si. A do darwinismo social. A do absoluto relativismo.

Já cá anda há tempo demais para se dar ares de debutante...

P.S.: Votos de Feliz Natal e de Óptimo Ano Novo para todos os leitores do Diário Digital.

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