|
Público - 16 Dez 03
E o Vento Que Passa...
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Portugal importa 90 por cento da energia que consome. Sob a forma de
petróleo, carvão, electricidade e, mais recentemente, gás natural.
Portugal gasta mal essa energia que importa e que nos sai muito cara.
Temos casas mal construídas e sistemas de aquecimento e arrefecimento mal
concebidos, transportamos as mercadorias quase todas por rodovia, boa
parte da indústria está obsoleta, desinvestimos numa rede eléctrica onde,
hoje, as perdas são imensas (mais de dez por cento), e por aí adiante
Portugal também cresce mal do ponto de vista energético, pois por cada
unidade que acrescentamos ao produto acrescentamos um aumento do consumo
de energia desproporcionadamente maior. Pior: em 2003 o produto
contraiu-se, mas o consumo de energia subiu cinco por cento, o que é ainda
mais dramático.
Finalmente, Portugal não tira partido dos seus recursos. O programa de
construção de barragens está praticamente parado desde o caso de Foz Côa e
os outros programas de investimento em energias renováveis avançam a passo
de caracol. Quando não estão bloqueados por más vontades ou encravados no
emaranhado da burocracia estatal.
Sábado o PÚBLICO dava alguns elementos sobre o que os outros fazem e nós
não fazemos. Revelava, por exemplo, que o ano passado na Grécia 43 mil
casas tinham sido equipadas com energia solar, contra apenas mil em
Portugal. E que, em termos de energia eólica, a Galiza já tem 1600
megawatts a funcionar e só o ano passado construiu mais 300, isto é, fez
mais num ano do que Portugal em quinze.
Na verdade, Portugal tem apenas 250 megawatts instalados, apesar da
resolução do Conselho de Ministros de 28 de Abril de 2003 estimar o nosso
potencial em 3750 megawatts (uma estimativa por baixo, pois o potencial
real será de cinco mil megawatts). Se esse potencial já estivesse
aproveitado, se se tivessem desenvolvido estas formas de energia "verde",
Portugal não estaria hoje na situação de grave e quase irreversível
incumprimento do Protocolo de Quioto.
Temos pois de alterar radicalmente políticas. Em termos de energias
renováveis, só a energia eólica permite, no curto prazo, resultados com
impacto sensível não só na redução das importações e das emissões de
dióxido de carbono, como na criação de uma interessante fileira
industrial. Repare-se como, na vizinha Galiza, 75 por cento do
investimento em energia eólica é de incorporação local, isto é, utiliza
materiais e peças feitas na Galiza. E como na Dinamarca, um país com
metade dos habitantes de Portugal, este tipo de energia já cobre 22 por
cento das necessidades e gera 25 mil empregos.
Então, porque não se arranca? No essencial, porque o Estado não funciona e
porque não existe vontade política. Um projecto que leva meses a licenciar
em Espanha arrasta-se entre nós uns cinco anos, circulando entre
diferentes ministérios, gabinetes de ministros, câmaras municipais e
juntas de freguesia. Um inferno kafkiano que a mudança de Governo não
melhorou, antes pelo contrário. Tudo serve para criar dificuldades, desde
imaginários valores ambientais até opiniões sobre a estética dos moinhos
ou o ruído das pás. E tudo serve para esportular aos investidores
"compensações" e "taxas". Sim, porque neste caso nem se pede dinheiro ao
Estado: só se pede é que o Estado não atrapalhe. E pense que temos
obrigações para cumprir relativamente ao Protocolo de Quioto e às metas
comunitárias de incorporação de energias renováveis.
[anterior] |