Expresso

Finalmente uma TV do Estado
 
DURANTE anos debateu-se o serviço público de televisão e discutiu-se, em intermináveis sessões, o que deveria ser a RTP.

Fizeram-se documentos, criaram-se comissões, sacrificaram-se pessoas, gastou-se dinheiro, perdeu-se tempo.

E, no fim de contas, a questão era simples.

A actual programação da RTP mostra que fazer serviço público não é um bicho de sete cabeças nem uma tarefa transcendente: exige apenas bom senso, equilíbrio e alguma humildade.

Com uma informação sóbria que rejeite o sensacionalismo.

Com debates e entrevistas sobre temas de actualidade transmitidos a horas razoáveis.

Com filmes e séries escolhidos com algum critério.

Com um ou outro concurso não estupidificante.

Com um jogo de futebol de vez em quando.

É possível fazer um aceitável canal alternativo.

E O SERVIÇO público é isso mesmo: uma programação alternativa às estações comerciais.

Durante anos a RTP insistiu num erro: para disputar audiências aos privados, o Canal 1 copiou o mesmo tipo de programação.

A certa altura, tínhamos três canais encavalitados uns nos outros lutando pelos mesmos públicos: a SIC, a TVI e a RTP 1.

Ora um canal do Estado, se faz sentido, é para transmitir não os mesmos programas mas programas diferentes.

É para satisfazer não os mesmos públicos mas públicos distintos, aumentando a oferta.

A RTP 1, hoje, é verdadeiramente um canal diferente.

E, além disso, constitui a prova de que, para fazer serviço público de televisão, não são necessários dois canais: basta um.

Um canal diferente, alternativo, razoável.

Um canal que - e esta será para algumas pessoas a grande surpresa - pode conseguir tão boas ou melhores audiências do que no tempo em que se esfalfava a competir com os canais comerciais, fazendo contraprogramação, transmitindo quilómetros de telenovelas, inventando concursos a todas as horas, promovendo debates inqualificáveis.
 

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