Público - 5 de Dezembro
A Nossa Tragédia
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Mais uma vez, a nudez crua da verdade: os alunos portugueses com 15
anos são dos pior preparados da OCDE. No conjunto das três áreas
avaliadas - literacia em leitura, matemática e ciências -, só o
México ficou sistematicamente atrás de Portugal.
Como disse o ministro da Educação, estes resultados não
surpreendem - mas não era isso que ele devia constatar. O que devia
sublinhar é como são inquietantes. E não se desculpar com "a
carga histórica, social, política e educativa" do "país que
temos". Tudo isso já nós sabemos - o que precisamos de saber é
como é que vamos ultrapassar o pior dos nossos atrasos.
Talvez muitos portugueses não tenham ainda entendido, mas no mundo
em que vivemos a riqueza dos países, o bem estar dos seus povos, não
brota de poços de petróleo, minas de diamantes ou outras benesses da
natureza. A riqueza e a pobreza das nações é uma função directa da
sua capacidade de trabalhar, de criar, de inventar, de se organizar, e
isso só é possível com uma população que sabe ler, escrever e
contar - bem.
Ora é aqui que reside a nossa tragédia. Não é em possuirmos um
produto interno bruto que é apenas uma fracção da média da União
Europeia, nem é em irmos perder os fundos dentro de meia dúzia de
anos: é em este estudo comprovar que os jovens que por essa altura
estarão a chegar ao mercado de trabalho vão saber menos e estar pior
preparados do que todos os nossos vizinhos e concorrentes.
Os dados revelados ontem, na sua crueza, querem dizer que de pouco
valem as previsões dos economistas sobre quanto anos levaremos a ser
tão ricos como os nossos parceiros europeus: eles mostram que o mais
provável é o abismo entre Portugal e a Europa crescer, não diminuir.
Não há milagres económicos quando não há competências para os
protagonizar - e não falamos de "cérebros", falamos da
capacidade para o mais banal dos trabalhadores exercer com diligência e
vontade de aprender e evoluir mesmo a mais simples das tarefas.
Importa pois saber porque estamos onde estamos - e como podemos sair
deste poço onde mal penetra a luz. O estudo da OCDE tem muitos
elementos que ajudam a pensar.
De imediato salta à vista que o problema português não é um
problema de recursos. Portugal gasta, por cada aluno, mais do que boa
parte dos países com que nos comparamos, e obtém resultados bem
piores. O que quer dizer que desperdiça. O que quer dizer que podia
gastar menos e saber mais, como a Irlanda e a Coreia. Fazer aumentar as
despesas em Educação, como foi bandeira inicial da actual maioria,
não é solução: é mais importante saber gastar melhor o muito que
já se gasta.
O estudo também mostra a importância dos ambientes familiares.
Distingue ricos de pobres, mas pouco: separa sobretudo ambientes
familiares estáveis onde se valoriza o estudo de ambientes familiares
desfeitos onde se pratica o desenrascanso. O estudo é particularmente
duro para com as famílias monoparentais: em quase todos os países os
alunos provenientes de tais famílias têm piores resultados do que os
seus colegas, o que os condena a futuros mais difíceis e com
rendimentos mais baixos.
A qualidade das escolas também é importante. O estudo sublinha a
importância das boas escolas, valoriza aquelas que são capazes de
utilizarem, de forma competente, graus progressivos de autonomia e,
sobretudo, elogia as que praticam a exigência e acreditam na
disciplina.
Face a este relatório, o ministro Júlio Pedrosa considerou ser
importante ver como países cujos resultados, há poucos anos, eram
semelhantes aos portugueses, foram capazes de dar o salto, e referiu-se
em especial à Finlândia e à Irlanda. É uma boa ideia, já que
poder-se-á reparar, por exemplo, que nesses países o grau de autonomia
das escolas é maior, a disciplina dentro da escola também, tal como
maior é o empenhamento profissional dos professores. Já as escolas,
fisicamente, nem são melhores, nem piores, do que as nossas.
Daqui resulta, de novo, o factor humano e institucional. A Portugal
não falta dinheiro, apenas sobram desculpas (a que propósito, por
exemplo, é o que o ministro falou de Rendimento Mínimo Garantido para
comentar as dificuldades da educação?). A Portugal também não faltam
meios nem professores, sobram é muitos anos de "eduquês"
laxista e pouco exigente.
Daí a nossa tragédia: atrasados na nossa riqueza relativa, estamos
ainda mais atrasados na capacidade para, trabalhando, recuperar tal
atraso.