Público - 5 de Dezembro
O Bom Estudante É Filho de "Boas Famílias"
Por BÁRBARA WONG
Acesso à cultura é importante
Contexto familiar influencia os resultados dos alunos, conclui o
estudo Aos estudantes de 15 anos o PISA perguntou tudo: o que fazem os
pais, a sua escolaridade, que bens culturais têm em casa e quais os
haveres familiares.
Tudo isto porque os resultados em literacia, matemática e ciências
podem não dever-se apenas às capacidades de estudo dos miúdos, mas
também aos seus antecedentes familiares e ao ambiente que vivem em
casa. Aliás, o PISA chega mesmo à conclusão que os factores
sócio-económicos têm impacto nos resultados dos alunos. "A
análise demonstra que as diferenças de desempenho dos estudantes nos
vários países que participam no PISA não desaparece quando são tidos
em conta os antecedentes familiares", diz o relatório.
São vários os factores que podem determinar o melhor desempenho dos
jovens.
Por exemplo, o estatuto profissional dos pais influencia ou não os
resultados dos alunos? Depende. Na maior parte dos países, sim; ou
seja, os estudantes cujos pais são quadros superiores - médicos,
professores universitários ou magistrados - têm melhores resultados do
que os filhos dos pequenos agricultores, mecânicos, taxistas,
camionistas ou metalúrgicos. A profissão dos pais pode influenciá-los
a aspirar a mais - logo, estudam porque sabem que esse é o meio para
atingir os seus fins, aponta o relatório.
Na maioria dos países, a distância que separa os que têm bons
resultados e são filhos de quadros superiores dos que têm piores
resultados e são filhos de pais com estatuto profissional mais baixo é
significativa. No entanto, existem estados, como a Coreia do Sul e a
Finlândia, em que os alunos com os piores resultados estão ao mesmo
nível daqueles que têm melhores resultados nos restantes países. O
facto de a Coreia do Sul ser um país onde existe uma forte cultura para
o sucesso pode ser uma das explicações.
E o nível de riqueza dos progenitores pode contribuir ou não para o
sucesso escolar? Sim. Na prática, os filhos das famílias mais ricas
tendem a sair-se melhor. No entanto, este factor tem menos peso do que a
profissão dos pais.
Por exemplo, nos países nórdicos, na Áustria, Bélgica, Itália e
Japão, o nível de riqueza não tem grande influência nos resultados.
No Japão, por exemplo, os estudantes "mais pobres" têm
melhores resultados, nas três áreas avaliadas, do que os "mais
ricos" de muitos países.
Bom relacionamento em casa pode ser determinante
O PISA perguntou ainda aos estudantes se tinham acesso à cultura,
literatura, poesia e arte. Se em casa havia livros, quadros e com que
frequência assistiam a espectáculos. São os miúdos que mais acesso
têm à cultura que se dão melhor nos domínios avaliados - um factor
que se reflecte mais nos resultados do que a riqueza dos pais.
Para além dos bens materiais, existem outras variáveis, como a
interacção com os pais, que podem influenciar os resultados. Conversar
com os filhos sobre política, cultura, sobre qualquer coisa,
preocuparem-se em saber como estão, pode ser um meio de contribuir para
o sucesso escolar. O PISA confirma que um bom relacionamento em casa
pode ser determinante para melhores resultados. No caso português, o
ambiente familiar é relevante para as aprendizagens dos alunos, mais do
que os recursos económicos.
E quem são os estudantes com piores resultados? O relatório conclui
que são os jovens oriundos de famílias monoparentais. É o que
acontece no Reino Unido e nos EUA. No primeiro caso, no entanto, os
resultados são superiores à média da OCDE. Neste ponto, o PISA alerta
para a necessidade de as escolas interagirem com as famílias
monoparentais, apoiando-as. Outros alunos com desempenhos mais fracos
são os filhos de imigrantes, para quem a língua da escola não é a
materna e que têm mais dificuldade em responder aos testes.
O objectivo da política pública de educação é providenciar
oportunidades iguais para todos os estudantes, de maneira a que todos
consigam oportunidades semelhantes. Um objectivo que é difícil de
alcançar quando o contexto familiar tem tanto peso nalguns países,
avança o relatório. O futuro é óbvio: serão os alunos com mais
dificuldades que terão menos oportunidades de emprego.