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Expresso - 15 de Dezembro
Na Educação a crise do País
Rogério Colaço*
«Importa dizer que não adianta, nem é justo, apontar imediatamente o dedo apenas aos professores, agentes primeiros do sistema educativo: o sistema educativo não é constituído apenas pelos professores que leccionam nas escolas. É-o também por quem tem a obrigação de equipar as escolas com meios e condições de ensino e aprendizagem adequadas (chamemos-lhe o 'poder político') e por quem tem a obrigação de sensibilizar os utentes das escolas (os alunos) para a importância da formação científica, cultural e humana, para a importância da aprendizagem, para a importância da escola.»
VIVEMOS de novo um período de agitação no sistema educativo. As notícias vão-nos dando conta das acções de protesto por parte das associações de estudantes que reclamam do financiamento que é concedido ao ensino superior, da acção social escolar, do pagamento das propinas, etc.; de sindicatos e associações de professores que reclamam a recuperação de alguma da dignidade que a profissão tem vindo a perder; de universidades que asfixiam em dívidas, na grande maioria originadas por cortes orçamentais sucessivos e políticas desastradas; de escolas secundárias sem condições de ensino e formação (sem laboratórios, sem ginásios ou, algumas vezes (muitas?), simplesmente sem mesas e cadeiras ou capacidade de oferecer condições mínimas de segurança a professores, alunos e funcionários).
Confrontados com estas notícias, recorrentes a cada ano que passa, duas questões surgem naturalmente: (a) será que a crise do sistema educativo português existe mesmo ou estas notícias exacerbam os factos, fruto talvez de uma fogueira de paixões dos directamente envolvidos (alunos e professores)?; (b) se a crise do sistema educativo é real, quais as consequências desta crise para todos nós enquanto sociedade? São muitas? São poucas? São graves? Afectam-nos a todos ou só a uma minoria de pessoas?
Quanto à primeira questão, parece-me claro que a crise do sistema educativo existe mesmo e, infelizmente, não se reduz ao quanto é que os alunos universitários pagam de propinas, nem ao montante dos aumentos dos professores, nem tão-pouco aos problemas das escolas que atravessam maiores dificuldades financeiras. Não. A crise é bem mais profunda e grave porque não é conjuntural: é estrutural. A prová-lo, os números apresentados nos relatórios da OCDE e de outros organismos independentes, de uma objectividade quase cruel. Os portugueses são os que, da Europa, têm índices de iliteracia mais elevados, os que menos matemática sabem, os de menor cultura geral, os que maior dificuldade têm em compreender um gráfico ou consultar um simples horário de comboios.
Será que os jovens portugueses são em média menos inteligentes que os de outros países e por isso têm mais dificuldade em aprender? A resposta é naturalmente negativa. A única resposta possível é que o sistema educativo português não consegue formar tão bem os jovens portugueses (ou em, sentido lato, os portugueses) como os sistemas educativos de outros países. Essa é a crise primeira do sistema educativo português, o seu grande drama: não consegue que os conhecimentos adquiridos em média pelos utentes sejam iguais aos conhecimentos que são adquiridos em média pelos utentes dos sistemas educativos de outros países.
E chegamos à segunda questão: quais as consequências desta crise para todos nós enquanto sociedade?
O «conhecimento» científico, tecnológico e humano encerra em si mesmo uma promessa de libertação da pobreza, da fome, do sofrimento e da insegurança, uma esperança de resposta às necessidades básicas do ser humano e de melhoria da sua qualidade de vida. Ao longo dos tempos as sociedades humanas que foram capazes de produzir, transmitir e divulgar «conhecimento» ofereceram mais saúde, mais segurança, mais conforto, mais riqueza e é por isso que se dizem «sociedades desenvolvidas». E é por isso, também, que o sistema que permite dotar as pessoas da capacidade de aprender e produzir «conhecimento» é o pilar de qualquer sociedade desenvolvida. E é por isso que são graves as notícias que nos vão dando conta da nossa iliteracia, dos nossos conhecimentos rudimentares de disciplinas científicas, dos baixos índices de cultura geral, etc.
Importa dizer que não adianta, nem é justo, apontar imediatamente o dedo apenas aos professores, agentes primeiros do sistema educativo: o sistema educativo não é constituído apenas pelos professores que leccionam nas escolas. É-o também por quem tem a obrigação de equipar as escolas com meios e condições de ensino e aprendizagem adequadas (chamemos-lhe o «poder político») e por quem tem a obrigação de sensibilizar os utentes das escolas (os alunos) para a importância da formação científica, cultural e humana, para a importância da aprendizagem, para a importância da escola. Ou seja, para a importância da aquisição de «conhecimento». E este papel deve ser, tem de ser desempenhado, primeiramente, pelas famílias. Assim, todos nós políticos, professores, pais e alunos fazemos parte do sistema educativo, temos responsabilidades sobre a actual crise e temos o dever de intervir de forma a torná-lo melhor e mais eficaz.
Termino com um episódio que aparece relatado na História Concisa de Portugal, de José Hermano Saraiva: em 1840, quando já toda a indústria europeia de tecelagem estava equipada com teares mecânicos, Franzini, um economista português que viria a ser ministro da Fazenda, mostrava-se contrário à aquisição destes teares para o nosso país porque... não haveria alguém que pudesse aprender a operar com eles. 160 anos passaram e muita coisa mudou entretanto: o regime, a constituição, os governos... os ministros. Então porque é que, mais de um século e meio depois, continuamos a ter uma produtividade «per capita» que é de cerca de metade da produtividade média dos países da União Europeia? Uma resposta possível (a única que me parece possível) é que já temos «teares mecânicos» mas ainda não temos quantidade suficiente de pessoas com capacidade (digamos, qualidade) para operar com os «teares mecânicos».
Enquanto não formos capazes de formar essas pessoas, por muita engenharia económica que façam os políticos do costume e por mais responsabilidades que o partido A atire ao partido B e vice-versa, daqui a outros 160 anos a nossa produtividade continuará a ser de metade da dos outros países e a nossa qualidade de vida continuará a depender dos subsídios que pediremos a outros e que nos serão dados... ou não. Eis a gravidade da crise do sistema de ensino.
* Docente do Departamento de Engenharia de Materiais do IST
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