Expresso - 1 de Dezembro Harry Potter no cinema
«O cúmulo dos cúmulos é que a escola de magia de Harry Potter é um típico internato inglês da velha guarda. Os meninos usam uniforme com gravata, partilham refeições em conjunto num refeitório imponente que imediatamente recorda os ambientes de Eton, Radley, Harrow ou mesmo Oxford e Cambridge. Estes são precisamente os ambientes antiquados que merecem o escárnio dos nossos intelectuais pós-modernos.»
ESTREOU ontem, entre nós, o filme Harry Potter e a Pedra Filosofal. Durante o último mês, alcançou retumbantes êxitos de bilheteira em Inglaterra, nos EUA, no Canadá, na Nova Zelândia e na Austrália. É um fenómeno curioso, a mais do que um título. Forçando um pouco as coisas, talvez pudesse ser dito que encerra um hino à civilização ocidental hoje ameaçada pelo terrorismo e sempre fustigada pela nossa própria «intelligentsia» bem pensante.
Este hino começa, desde logo, pela história da autora, JK Rowling, uma jovem mãe britânica, desempregada, que escreveu os livros sem subsídios do Ministério da Cultura. E, talvez por isso mesmo, escreveu-os sem tiques pós-modernos, visando apenas criar uma boa história que interessasse aos seus potenciais leitores. A economia de mercado, que os nossos intelectuais tanto acusam de gerar pobreza, tirou-a de facto da pobreza. Ela enriqueceu não por ter explorado alguém, como explicam os manuais do ensino secundário mas apenas porque milhões de pessoas livremente escolheram comprar os seus livros.
E os direitos de propriedade a terrível propriedade privada garante-lhe que, tal como John Locke escrevera há 300 anos, os frutos do seu trabalho não serão espoliados por outros: ela receberá uma percentagem dos lucros de bilheteira. Entretanto, um patrocínio da Coca-Cola, e não um subsídio pago com o dinheiro dos nossos impostos, já cobriu os custos de produção do filme.
Eis o capitalismo no seu auge dirão os talibãs e os nossos intelectuais pós-modernos. Podem crer! respondo eu, e ainda não ouviram tudo. É que o filme é sobre as virtudes morais que sustentam as sociedades livres, em particular sobre a indignação perante a injustiça e sobre o conflito entre o bem e o mal.
Durante as últimas décadas, brigadas de especialistas pós-modernos têm tentado mudar a partir de cima as concepções morais que espontaneamente são transmitidas pelas famílias, de geração em geração. Um gigantesco quase-monopólio do Estado sobre o sistema educativo faz dos filhos dos outros cobaias das mais bizarras teorias educativas. Através dessa fortaleza centralmente dirigida que certamente faria as delícias dos talibãs tem sido tentada uma verdadeira lavagem ao cérebro das crianças e dos adolescentes.
Harry Potter vem mostrar que essa lavagem ao cérebro não funciona. A história capta a imaginação dos leitores com um tradicional conto de magia e atreve-se a sublinhar as velhas virtudes do Ocidente civilizado: modéstia, jogo leal, espírito desportivo, firmeza na condenação do mal.
O cúmulo dos cúmulos é que a escola de magia de Harry Potter é um típico internato inglês da velha guarda. Os meninos usam uniforme com gravata, partilham refeições em conjunto num refeitório imponente que imediatamente recorda os ambientes de Eton, Radley, Harrow ou mesmo Oxford e Cambridge. Estes são precisamente os ambientes antiquados que merecem o escárnio dos nossos intelectuais pós-modernos.
Com Harry Potter, no entanto, eles foram batidos pelo mercado livre. Podem realmente transformar por decreto as escolas do Estado em comunas autogeridas e desmazeladas. Mas os 110 milhões de livros vendidos de Harry Potter são sobre colégios da «Old Britain», não sobre circos pós-modernos da «Cool Britannia».
Os talibãs e os pós-modernos têm um novo inimigo na civilização da liberdade e responsabilidade pessoal: «Harry Potter e a pedra filosofal».
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