Diário de Notícias - 10 de Dezembro Clonar a lógica João
César das Neves
Os problemas levantados pela clonagem humana, como tantos outros ligados à vida, são muito complexos. No meio do intenso debate que junta aspectos científicos, éticos, económicos, políticos e sociais, é fácil perdermo-nos no emaranhado de argumentos, opiniões e falácias. Mas, no fundo, a validade da clonagem com fins terapêuticos reside apenas na resposta a duas perguntinhas muito simples, questões clássicas, mas elementares. Quando é que começa a vida? É legítimo destruir uma vida para beneficiar outra?
A primeira pergunta é bem conhecida, porque está no centro do debate do aborto, questão que há anos domina as atenções neste campo. Os cientistas que avançam com as experiências de clonagem afirmam que o que produzem não é uma pessoa, mas apenas algumas células, que nem sequer constituem ainda um embrião.
Eles esquecem, ou querem esquecer, que o ovo humano, logo após a fecundação, é constituído pela junção de apenas duas células, o espermatozóide e o óvulo. E que, a partir desse momento até ao bebé que come a papa, ou ao adulto que trabalha à secretária, não acontece mais nada de radicalmente novo, a não ser a divisão sucessiva dessa célula e a sua especialização. As células iniciais são tanto uma pessoa como as muitas de um corpo humano, pois nada lhes será acrescentado de fora.
Quando é que começa a vida? Alguns respondem, simplesmente, que a vida começa no princípio. Mas esta resposta, óbvia, lógica, evidente, levanta imensas irritações e gera violentas réplicas. Parece a muitos que é inaceitável que a vida comece no princípio. A vida começa a meio. Porque dá jeito. A vida, dizem, começa às dez semanas. Ou às vinte semanas. Ou no nascimento. Para esses, a vida é a única coisa que não começa no princípio.
Perante opiniões deste tipo, a ciência séria repete simplesmente aquilo que foi referido: nada de revolucionário acontece naquele ser desde a junção das duas células originais, uma do pai, outra da mãe. Nesse instante, fica completo o código genético da nova pessoa, como mostrou a investigação mais recente. É esse código que se vai, depois, multiplicar nas várias células do corpo. A pessoa vai crescer, transformar-se e desenvolver-se imenso, sobretudo nos primeiros momentos. Mas tudo está já presente no ovo inicial. Assim, quem destrói aquele amontoado de células, mesmo que ainda sejam poucas, está evidentemente a matar alguém. Dizer que não há morte, porque a vida começa em qualquer momento posterior, é, pois, uma evidente e forte distorção da lógica. Mas falácias e confusões são o que mais abunda neste campo.
O debate vai continuar, nos próximos tempos. Mas, nessa discussão, o mínimo que se exige é que se admita e aceite que afirmar a resposta mais directa e evidente, a que diz que a vida começa no princípio, constitui uma atitude razoável e séria. Podem construir-se argumentos mais elaborados, baseados em arquitecturas complexas, porque dá jeito à medicina, à sociedade, ou à carreira dos pais. Mas ao menos não se ataque como uma infâmia ridícula a posição de quem defende uma ideia tão óbvia e lógica: a vida só pode começar no princípio.
Mas será que, mesmo tratando-se de uma morte, ela não é justificada? Se dessa morte saírem excelentes resultados terapêuticos para o avanço da medicina, não haverá razões válidas para destruir essa vida? Aqui, entramos na segunda pergunta, relativa à legitimidade do homicídio, que também é central noutros casos, como a pena de morte, a guerra ou a legítima defesa. Na situação de clonagem, a manipulação das células de um embrião é motivada, porque daí podem advir curas maravilhosas para várias doenças. Temos o direito de travar o progresso científico?
A resposta a esta questão é evidente, em casos paralelos. As experiências médicas feitas pelos nazis, nos campos de concentração, são hoje repudiadas por todos. E a razão não é a tolice daqueles médicos, que não conseguiram grandes curas, nem o facto de as vítimas serem escolhidas com motivações racistas. Nós achamos inaceitável que se obriguem pessoas a sujeitarem-se a testes que põem em risco a sua vida, mesmo que daí saiam avanços notáveis para a medicina.
Mas, se isso é assim, que dizer das experiências com embriões, que são pessoas reduzidas ao silêncio e à vulnerabilidade mais total, sem ninguém que zele pelos seus direitos? Não é evidentemente razoável dizer que as experiências médicas com seres humanos nos primeiros momentos da sua vida são muito mais infames e revoltantes do que com prisioneiros de guerra? Será de estranhar que as gerações futuras venham a acusar-nos, por isto, muito mais violentamente do que nós hoje fazemos aos nazis? Mais uma vez, não será esta a resposta mais lógica, simples e evidente? Por que razão tantos se insurgem contra ela?
Os problemas da clonagem humana são complexos. Mas a única forma de obter respostas sérias e sólidas é enfrentar com frontalidade as questões básicas. E lidar com elas de forma lógica.
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