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12 de Dezembro de 2000 - Ecclesia
Inutilidades do Natal
José Dias da Silva, Professor Reformado.
A vivência que hoje se faz do Natal pode levar-nos a colocar a questão de saber se o Natal se tornou uma festa pagã ou se ainda é uma festa cristã. É certo que muitos dos valores do Natal cristão continuam a ser vividos, mas é cada vez maior a presença do espírito da sociedade de consumo. O que não é de admirar: enquanto os valores cristãos se baseiam na tradição e em costumes nem sempre devidamente adaptados ao espírito do nosso tempo, as exigências da sociedade de consumo são impostas por uma pressão publicitária suficientemente persuasiva para convencer o mais renitente.
É nesta ambiguidade que se pode colocar o problema das inutilidades do Natal. Cada um de nós dará a esta palavra sentidos diferentes. Por isso, vou tomar as prendas de Natal como fio condutor para esta reflexão, destacando, nas suas vertentes positiva e negativa, três aspectos: o aumento de stress, a multiplicação de prendas inúteis e a banalização dos sentimentos.
O Natal pode tornar-se para muitos um tempo de stress reforçado. Quantos começam logo no princípio do mês em correrias de supermercado para supermercado, de loja para loja, numa busca, que tem tanto de frenética como de frustrante, para encontrar prendas suficientes e variadas para toda a família e para os amigos. O aspecto positivo está naquilo que tal preocupação significa de atenção aos amigos e parentes, que temos todos os dias no nosso coração mas nem sempre temos ocasião de o manifestar. Os aspectos negativos prendem-se com a manifesta cedência ao consumismo e com a facilidade com que trocamos algo de nós próprios para dar por algo que a sociedade de consumo nos impinge e até nos impõe.
O Natal pode ser para muitos um tempo de prendas inúteis. A instituição prenda de Natal tornou-se tão tirana que muito poucos conseguem resistir-lhe. Assim, e como há muitas prendas a comprar e todos os anos se deve comprar alguma coisa (diferente para não repetir), quantas vezes acabamos por adquirir inutilidades que apenas servem para mostrar que não esquecemos os amigos. O aspecto positivo está na preocupação em visibilizar e materializar a amizade que não pode ser apenas um jogo de palavras ou uma sequência de palmadinhas nas costas. Os aspectos negativos revelam-se no contributo para a exploração e desgaste dos recursos naturais e para o aumento de resíduos urbanos num tempo onde a poupança da natureza passa por maus dias.
O Natal corre também o perigo de se transformar num tempo de banalização dos sentimentos. Porque é costume visitar amigos e familiares num intervalo de tempo tão curto e como há muitos candidatos na agenda, as visitas são normalmente apressadas impossibilitando um encontro repousado, carregado de diálogos e partilha de vida, de um ano da nossa vida, pois, possivelmente, a última visita acontecera no Natal do ano anterior. É uma visita de entrar e sair: Eh pá! Desculpa lá. Mas sabes como é que é. Ainda tenho que ir visitar mais meia dúzia de amigos e o tempo já é pouco. E lá se entrega a prenda (inútil?), deseja-se um Bom Natal e um feliz Ano Novo. Assim em dois ou três dias, quando muito, cumpre-se a obrigação de visitar amigos que talvez não voltemos a vê-los senão no próximo Natal. Muito positivo é o encontro, a visita, as palavras amigas e carinhosas, mesmo rápidas e telegráficas, que se trocam com amigos que a correria do dia a dia não permite visitar com regularidade. Negativo é a rapidez do gesto que pouco a pouco pode ir substituindo a profundidade do sentimento. Negativo é transformar esta coisa linda, que precisa de tempo, de palavra, de conversa despreocupada, de espaço para não fazer nada, que é a amizade e a ligação a um amigo, em algo que acontece e se volatiliza num minuto magro e superficial que não dá tempo para nos olharmos nos olhos e ver se realmente estamos bem e somos felizes. Negativo também, mas muito ao espírito desta sociedade consumista, é que consideremos estes segundos mal roubados ao nosso dia a dia como o quanto baste para mostrar que gostamos dos outros. Assim acabamos por tornar a amizade e o amor coisas ligeiras, superficiais, e não flores delicadas e belas que precisam de ser especialmente acarinhadas, porque correm o perigo de extinção por falta de quem as cultive com carinho. E, não menos grave, é ficarmos com a consciência de que fizemos o que devíamos ter feito.
Felizmente que haverá ainda muita gente que tem resistido a estas tentações tão subtis que mal damos por elas.
De qualquer modo, não podemos esquecer que, mesmo com estas inutilidades, o Natal é ainda o tempo por excelência do encontro com a família, da celebração da festa genuína, do viver a alegria, pura, de estar rodeado por amigos, do recordar as coisas boas de uma infância: o frio quente da noite, os cânticos comoventes do Natal, a ceia melhorada e partilhada com os vizinhos, o sapatinho na chaminé onde muitas vezes o Menino Jesus apenas podia deixar uma laranja. Estas recordações, que nos deixam um sentimento tão típico e agradável, já só fazem parte do mundo dos sonhos dos adultos. A sua falta empobrece o Natal das nossas crianças, que, muitas vezes terão de se contentar com festas virtuais na Net e com as ruas iluminadas das cidades. A não ser que tenhamos a imaginação suficiente para lhes mostrar um Natal que seja efectivamente a festa do amor, da alegria, da solidariedade, da família, de toda a família.
O leitor já percebeu que faço parte daquela minoria que considera desperdício andarmos a comprar inutilidades nas lojas para dar aos amigos. Neste contexto faço-lhe uma sugestão. Visite os amigos, leve-lhes e dê-lhe um pouco de si, do seu tempo ou de alguma criação sua, mas não lhes leve uma prenda da sociedade de consumo. Junte o dinheiro que gastaria com tantas prendas e ofereça-o a alguma instituição, onde haja crianças que talvez nunca tenham tido uma prenda na vida ou leve-o a alguém que não pode comer bacalhau graúdo ou peru nessa noite que devia ser tão linda para todos. E informe disso os seus amigos que talvez tenham ficado decepcionados com a falta da sua prenda. Talvez eles achem a ideia interessante e adiram a ela no próximo Natal.
É que, sabe, estas coisas às vezes pegam-se...
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