Diário de Notícias -
14 Ago
08
Os novos pobres
Pedro Lomba
Uma pergunta: há 40 anos ou menos, havia mais pobres
em Portugal, grupos de risco, vários tipos de
desintegrados. A sociedade portuguesa era dual, como
mostrou o sociólogo Adérito Sedas Nunes: o mundo dos
"de cima" existia sem contacto com os "de baixo". De
certa forma esse dualismo ainda existe. No entanto,
a pobreza portuguesa dessa época nunca se associou a
fenómenos de criminalidade, nunca justificou que
fosse estabelecido um nexo entre as condições
sociais de uma pessoa e o seu desvio para o crime.
Hoje, mesmo que a sociedade portuguesa continue
segura, é verdade que as condições da pobreza em
Portugal se alteraram e que os "novos" pobres são
mais propensos a casos de criminalidade do que no
passado. Como explicar a mudança? Um regime de
liberdade por oposição a um de autoritarismo
demonstra alguma coisa. A crise e as desigualdades
de rendimento, mais ostensivas e pronunciadas,
produzem reacções de cobiça social que podem
descarrilar. E o que antes era uma sociedade fechada
abriu-se à Europa e a um mundo globalizado.
Mas não só. Pouca gente estudou melhor a pobreza em
Portugal do que a investigadora da Faculdade de
Economia Leonor Vasconcelos Ferreira, que morreu
prematuramente esta semana. Conhecia alguns dos seus
artigos (por exemplo, "Dinâmica de rendimentos e
persistência da pobreza em Portugal"), produto de um
trabalho de décadas, e esse trabalho estatístico,
sem nunca sair do registo de "objectividade" e do
jargão académico, procurava explicar porque é que a
pobreza portuguesa é tão "crónica" e resistente,
porque é que se transmite de pais para filhos e não
adere com facilidade aos meios que podem assegurar a
mobilidade. Em Loures, um pai e um tio levaram um
menor de 13 anos para um assalto. O rapaz acabou
morto pela GNR. Tratou-se de um caso de iniciação à
marginalidade, mas também de típica transmissão da
pobreza.
Ao lermos o que escrevia Leonor Ferreira, percebemos
que a núcleo do problema não é económico mas
cultural. Depende das políticas de desenvolvimento
humano que podem levar grupos de pobres
especialmente vulneráveis a interiorizar valores de
educação, aprendizagem social e preparação do
futuro.
Nas últimas décadas, a sociedade portuguesa tem
sofrido uma erosão das normas sociais que distinguem
as sociedades saudáveis. Indivíduos em estado bruto
crescem em famílias deterioradas, sem respeito por
uma escola gratuita e por noções mínimas de
comunidade. Os apoios sociais são tidos como
permanentes em vez de transitórios. O consumo vale
mais do que o trabalho. Certos grupos imigrantes
esquecem que, tal como os portugueses, devem zelar
pelas normas da sociedade que os recebe. Está aqui a
agenda socialmente conservadora e economicamente
progressista que devemos perseguir.