Público -
11 Ago
08
Em cima do joelho
Sarsfield Cabral
Demasiadas decisões são tomadas sem pensar no longo
prazo
O Ministério da Saúde garantiu que, se houver subida
nos preços nos medicamentos de marca (por causa da
descida nos genéricos), tomará todas as medidas para
não serem os cidadãos a pagar. A questão tinha sido
levantada pelo presidente da Associação Nacional de
Farmácias, João Cordeiro, alegando que, com os
genéricos 30% mais baratos, baixaria a
comparticipação do Estado nos fármacos de marca. Daí
a possibilidade de a maioria dos doentes vir a pagar
mais, no total, pelos medicamentos de que necessita.
Esperemos que a promessa do Ministério da Saúde seja
para cumprir. É que "quando a esmola é grande, o
pobre desconfia"... Tanto mais que o presidente da
ANF afirmou que a decisão de baixar 30% os preços de
genéricos foi tomada "em cima do joelho". Ora não
têm faltado, entre nós, medidas anunciadas com
grande estardalhaço mediático - mas que, passado
pouco tempo, se revelam erradas, dando um trabalhão
a desfazer, ou ficam muito aquém das expectativas.
Às vezes, é o exagero propagandístico do Governo que
empola as expectativas, depois frustradas. É o que
terá acontecido com o anúncio da introdução de um
automóvel eléctrico em Portugal, em parceria com a
Renault-Nissan. O projecto não irá ter, afinal, os
efeitos que se esperavam na dinamização da nossa
economia. O impacto na indústria nacional será
escasso, incluindo na montagem de uma rede logística
de carregamento e substituição de baterias.
Outras vezes, as decepções e as viragens acontecem
porque os assuntos foram realmente mal estudados.
Lembremos o caso do aeroporto de Lisboa. Depois de
décadas de estudos, e quando o Governo jurava que o
aeroporto seria construído na Ota, afinal vai ser em
Alcochete. Mas essa decisão (porventura certa) só
foi tomada, corrigindo a anterior, porque alguém de
fora do Estado a veio propor, in extremis. Mas não
deveriam ter sido os serviços do Estado a descobrir
essa alternativa? É para isso que lhes pagamos.
Também se dá o caso de as coisas vistas do lado do
governo terem um aspecto diferente de quando vistas
do lado da oposição. O actual Executivo foi
percebendo que as Scut, auto-estradas sem portagem,
são uma asneira. Por isso, começou a recuar. Mas o
tardio reconhecimento da realidade vale-lhe agora
algumas guerras locais, com automobilistas furiosos
por terem de pagar algo que lhes fora dito ser de
graça.
Do ponto de vista da qualidade jurídica (problema
diverso do plano substantivo e político),
multiplicam-se as leis mal feitas. Só no Estatuto da
Região Autónoma dos Açores o Tribunal Constitucional
detectou oito preceitos inconstitucionais. No
entanto, o diploma tinha sido aprovado por
unanimidade tanto na Assembleia Regional dos Açores
como na Assembleia da República. Os deputados devem
aos eleitores e aos contribuintes um menos
deprimente grau de competência.
E têm sido patéticas as sucessivas alterações ao
Código de Processo Penal. As mudanças começaram no
governo de António Guterres, dando mais poderes à
investigação. Depois, com o processo Casa Pia,
alterou-se a perspectiva e limitaram-se esses
poderes, em nome dos direitos dos arguidos. Agora,
magistrados (com destaque para o procurador-geral da
República) queixam-se de que, com a actual
legislação e os actuais prazos, grandes
investigações irão por água abaixo - como a Operação
Furacão, visando crimes fiscais e económicos.
Claro que decidir "em cima do joelho" não é um vício
apenas da esfera política (embora, aí, como a
rotação dos responsáveis é maior - um mandato de
quatro anos, em regra - a tentação para tomar
medidas sem pensar no longo prazo seja naturalmente
mais forte). Dir-se-á que é da nossa natureza de
latinos: somos excelentes a improvisar, mas fracos a
planear e a antecipar consequências de longo prazo.
Isso mesmo se vê, por exemplo, no endividamento de
muitas famílias. Pedir um empréstimo para comprar
casa foi uma decisão racional quando as taxas de
juro desceram, por causa da nossa entrada no euro.
Pois se o mercado do arrendamento tinha quase
desaparecido... Mas terá havido alguma ligeireza, da
parte dos bancos e de alguns particulares, na
maneira rápida como se agravou o endividamento das
famílias. Como se os juros pudessem manter-se sempre
baixos.
Chegado aqui, uma dúvida me assalta: não terei
escrito este artigo "em cima do joelho"? Jornalista