Correio da Manhã online - 11 Ago 06

Ousadia rende mais audiências

 

Telenovelas cada vez mais picantes

Cenas de sexo e violência invadem as telenovelas brasileiras e portuguesas. Os críticos denunciam excessos mas os autores garantem que apenas mostram a vida como ela é.

A vida que passa nas telenovelas é mais moderna do que a real, garantem os críticos brasileiros para justificar a polémica causada com Páginas da Vida, em exibição no horário nobre da TV Globo. Depois de um striptease de Ana Paula Arósio e de cenas de sexo quase explícito entre a sua personagem (Olívia) e a de Edson Celulari (Sílvio), foi o depoimentto de uma senhora de 68 anos a falar sobre o seu primeiro orgasmo que chocou os espectadores da trama escrita por Manoel Carlos e que a SIC estreia em breve.

No entanto, as audiências subiram a partir desse momento e, só nas primeiras três semanas, Páginas da Vida ultrapassou por três vezes a marca dos 50 pontos, com 65% de share. O fenómeno repete-se em Portugal e também na ficção nacional a ousadia continua a crescer. As cenas estão cada vez mais quentes e os temas mais controversos. Isto numa época em que crianças e adolescentes ficam acordados até mais tarde devido às férias. Resultado: aumentaram o número de queixas apresentadas à Entidade Reguladora da Comunicação, confirmou a Correio TV junto daquela entidade. Tempo de Viver, Fala-me de Amor e Morangos com Açúcar são as principais visadas, mas são também líderes de audiências, com shares superiores a 40%.

No topo da contestação está o constrangimento provocado em quem vê televisão na companhia dos filhos. Ana Cid Gonçalves, mãe e secretária-geral da APFN, Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, reitera que o problema principal é o desfasamento entre os temas e a realidade. Como mãe não acho que as telenovelas actualmente no ar sejam adequadas ao horário e ao público que as vê, pois fomentam maneiras de pensar menos próprias e promovem estilos de vida pouco adequados, defende.

Mãe de quatro filhos, Ana Cid salienta as consequências do excesso de ficção: As telenovelas podem ter um impacto negativo sobre os jovens. Há crianças e adolescentes que conseguem lidar com a grande quantidade de informação veiculada pelas telenovelas. No entanto há crianças muito pequenas que vêem telenovelas todos os dias sem que tenham maturidade para gerir a informação dada. Isso reflecte-se depois. Actualmente vemos uma imaturidade nos jovens que é cada vez maior. Nos comportamentos, nas atitudes, na escola. Ana Cid Gonçalves revela: A APFN não tem tentado persuadir os canais a alterar a sua programação, mas através da revista da associação temos apoiado os pais dando indicações, tal como fazemos com o cinema, de quais são os programas adequados para os seus filhos. Tentamos indicar o que pode ser bom. A partir daí são os pais que gerem a informação como querem. Em conversas e nas reuniões que temos, constatamos a preocupação dos pais sobre esse assunto.

ESPECTADORES CRÍTICOS

Atentos, os espectadores também são críticos em relação aos conteúdos das telenovelas, apesar de estas continuarem a ser os programas de maior audiência da televisão portuguesa. Carlos Macedo, de 34 anos, e Anabela Salgado, de 34, moradores na Maia, não dão relevância às cenas e temas controversos nas telenovelas portuguesas. Até porque a filha Nádia, de seis anos, apenas vê as telenovelas infanto-juvenis Morangos com Açúcar (TVI) e Floribella (SIC). Apesar de preferirem a telenovela exibida pela SIC, por considerarem ser mais adequada à idade da filha, admitem que também a deixam ver os Morangos. Quando ela não percebe algo questiona e acabamos por lhe transmitir a ideia simplificada, para que a perceba. As outras telenovelas dão mais tarde e a essa hora já está a dormir. Não vê o Tempo de Viver que aborda temas ainda considerados tabu, adiantou a mãe, Anabela.

O acompanhamento por parte dos pais é a melhor forma de minorar os riscos, opina o psicólogo Nuno Nodin que realça a forma como os temas são tratados. Os temas abordados nas telenovelas traduzem o que se passa na sociedade e a sociedade segue e influencia as telenovelas. Há uma influência mútua, de duplo sentido. Havendo temas mais sensíveis, devem ser discutidos com os filhos. Aí é dever dos pais proporcionar esclarecimentos. Esses momentos devem ser motivo de conversa entre pais e filhos. Mas, falando de constrangimentos, tudo depende de quem são os pais e de quem são os adolescentes, diz.

Quem não concorda com estas posições são os autores das telenovelas em questão. Rui Vilhena, o criador de Tempo de Viver, realça que os temas das suas telenovelas não são escolhidos apenas para chocar, mas sim para acordar as pessoas. A maior preocupação de um autor é o público e o público está cada vez mais ousado e exigente. O que nós tentamos fazer é encontrar um meio-termo, pois estamos num canal generalista que é mais abrangente do que um canal do cabo, explica. Rui Vilhena salienta que Tempo de Viver não tem nada que choque as pessoas em termos de imagens. Apenas tem temas controversos. Manuel Arouca, autor de Jardins Proibidos, que se encontra a preparar a próxima telenovela da TVI, salienta por seu lado que quando está a trabalhar num argumento tem sempre em perspectiva a reacção do público. O problema é não haver certezas e, às vezes, acontecem surpresas, afirma. Sobre a forma como é feita a escolha dos temas a abordar numa telenovela, explica que são escolhidos a partir de uma troca de impressões entre o autor, a estação e o produtor. Sobre a nova telenovela que está a preparar para o canal de Queluz, Arouca desmente as notícias veiculadas pela imprensa que avançavam um enredo polémico construído à volta de um transexual.

NOVELAS JUVENIS APÓS OS TELEJORNAIS

Facto estranho é a exibição de novelas juvenis após os telejornais, diz o crítico João Gobern. Se isso acontece, e com os resultados que as audiências evidenciam, é arte e engenho dos directores de programação que arranjam um serão baseado num único produto televisivo. Em relação aos temas abordados, Gobern não dramatiza: Temos que nos habituar à ideia de que a telenovela é tanto melhor quanto mais se aproximar da realidade. Se essa realidade passa por sexo, álcool, drogas, incesto ou outros temas controversos, é natural que as telenovelas reflictam isso. Julgo que todos os temas são susceptíveis de ser abordados numa telenovela e que não devem existir temas tabu. O aproveitamento que se faz desses temas é que tem de ser inteligente.

Já o professor de Comunicação Francisco Rui Cádima defende que existem de facto problemas de adequação dos conteúdos face ao público que assiste aos programas. Penso que as novelas juvenis não são adequadas aos públicos mais infantis, e que também assistem, porque desenvolvem dramaturgias que têm a ver com uma adolescência mais tardia. Julgo também que há um desajustamento nos horários em que são exibidas e esse aspecto deveria merecer mais atenção da parte dos directores de programação dos canais, defende. Rui Cádima considera ainda que há determinados temas nas telenovelas que podem ser considerados chocantes: Há temas sexuais que são exibidos a um público demasiado jovem, num horário demasiado cedo.

FAMÍLIA COUCEIRO CRITICA: SÃO TELENOVELAS A MAIS

A família Couceiro, residente em Arzila, Coimbra, não tem dúvidas que são telenovelas a mais. Cláudia, a filha de 16 anos, acompanha os Morangos com Açúcar, mas não dá grande importância às restantes telenovelas exibidas em horário nobre pelos canais portugueses. A jovem admite aprender com as cenas que assiste nos Morangos, mas considera exageradas as cenas da virose e do incêndio no Colégio da Barra. Cláudia Couceiro considera que temas como o sexo e as drogas ainda são pouco falados na televisão e reconhece que em casa os pais nem por isso falam nestes assuntos. Maria Filipe, a mãe, garante que em casa não se fala de drogas, acrescentando que tenta falar de assuntos convenientes para a idade. José Couceiro, o pai, assume-se como antinovelas, enquanto Maria Filipe diz não ver os Morangos com Açúcar. Ainda assim, afirma que a telenovela que prende os mais jovens à televisão não devia dar em tempo de aulas, porque desorienta os miúdos que não estudam.

PREFERÊNCIAS NOS ESTADOS UNIDOS: SEXO CATIVA CADA VEZ MAIS

A estatística relativa ao conteúdo dos programas exibidos nas televisões norte-americanas demonstra que há cada vez mais sexo no pequeno ecrã. No horário nobre são exibidas quase seis cenas de sexo por hora. Os dados confirmam que os programas mais vistos são os que incluem mais cenas de cariz sexual.

PERCENTAGEM DE PROGRAMAS COM CONTEÚDO SEXUAL

1998 - 56%

2002 - 64%

2005 - 70%

NÚMERO DE CENAS DE SEXO POR HORA, 2005

Todos os programas - 5.0

Horário nobre - 5.9

Programas mais vistos - 6.7

POR TIPO E CONTEÚDO, 2005

Fala sobre - 68%

Comp. sexual - 35%

Relações - 11%
 

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