Público - 27 Abr 05

 

Por que não podem as escolas portuguesas seleccionar os seus professores?

José Pacheco

 

Poderemos colocar algumas reservas às conclusões de um estudo que compara sistemas com diferentes características. Porém, o enunciado de alguns factores de sucesso merece reflexão.
Na Finlândia, as escolas beneficiam da existência de um corpo docente estável. Desde logo, o contraste com a nossa realidade é flagrante. Por que não podem as escolas portuguesas seleccionar os seus professores, à semelhança do que sucede na Finlândia? Talvez porque escasseie a coragem dos políticos. O anacrónico sistema de colocações é assunto tabu e temo que, à semelhança do que vem sucedendo relativamente à avaliação das escolas e dos professores, continuemos anestesiados por corporativismos e pela retórica do discurso de política educativa.
A Finlândia e a Coreia do Sul mostram-nos que não é com mais exames que se alcança a excelência académica. Não nos deixemos desmoralizar por "produtores de opinião" apologistas de mais exames e que afirmam serem as "novas pedagogias" a causa do insucesso ("novas pedagogias", que nenhuma escola adoptou, e que nem eles sabem dizer quais são...).
Em educação, as mudanças são lentas e não poderemos deter-nos em leituras imediatistas. Quais os processos que conduziram aos efeitos supostamente medidos? O que terá sido sacrificado pelo caminho? A referência a taxas de suicídio juvenil não aparece por acaso e os primeiros lugares dos rankings podem ocultar subtis processos de prévia selecção. Na Finlândia, "há escolas que fazem turmas "especiais", para que os diferentes deixem de "desestabilizar" (sic) uma turma inteira", sinal inquietante de exclusão escolar e social.
É preciso afirmar que uma escola pública para todos é conciliável com o sucesso e que o "insucesso escolar" é um paradoxo num dos mais caros sistemas educativos da Europa. Em Portugal, diminuiu o número de alunos, aumentou o número de docentes, a máquina ministerial, a despesa... O excesso de intervencionismo da administração (central ou "desconcentrada") em domínios para os quais não está capacitada (como o da pedagogia) impôs o primado da burocracia. Uma gestão feita a partir de gabinetes inviabilizou verdadeiros projectos e uma efectiva autonomia das escolas. Desperdiçámos gerações de excelentes professores. Passámos décadas a importar "modas" pedagógicas, a sustentar inúteis comissões, a manter projectos inconsequentes e a introduzir sucessivas reformas (que as escolas, sucessivamente, reformaram).
Hoje, mais do que imitar eventuais virtualidades de outros sistemas, é inadiável questionar uma escola que produz insucesso. O modelo "tradicional" reproduz-se como uma praga. Mais data show menos pau de giz, em pleno século XXI, a escola mantém-se tributária de necessidades sociais do século XIX. Quando disso as escolas se derem conta, estará dado o primeiro passo para deixarmos de carpir a sina de ocupar os últimos lugares dos rankings. Professor do 1º ciclo do ensino básico, ex-coordenador da Escola da Ponte

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