Público - 27 Abr 05

 

Competição incentiva alunos coreanos a serem dos melhores

Bárbara Wong

 

Depois das aulas, alunos passam horas a estudar. Os maus estudantes são ajudados pelos colegas

Competitividade. É esta a característica que pais e professores incutem nos alunos da Coreia do Sul desde que entram na escola. É também por causa desse sentimento, que passa por toda a sociedade, que estão tão bem representados no PISA, o estudo que avalia os resultados dos estudantes de 15 anos de 41 países, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
Os alunos coreanos saem-se bem em todas as áreas avaliadas. E são os que têm os resultados mais homogéneos, havendo poucas diferenças entre os estudantes que participam. Em 2000, a Coreia assumia a liderança a Ciências e ficava em segunda posição a Matemática, só ultrapassada pelo Japão. Três anos depois desce para terceiro na literacia científica mas ocupa o segundo na Leitura e na Matemática.
"É uma competitividade construtiva porque ajuda o povo coreano a melhorar as suas condições económicas e sociais", explica Byung Goo Kang, assessor cultural da embaixada da República da Coreia.
Na década de 60, do século passado, a Coreia era um Estado subdesenvolvido, com uma taxa de analfabetismo perto dos 35 por cento. O país tinha saído de uma guerra civil de que resultara um milhão de mortos. Em 1968, o Presidente da República, Park Chung Hee, criou uma carta educativa e o Estado passou a investir na formação. Actualmente, gasta 8,2 por cento em educação, sendo que 4,8 é investimento público e o resto é privado.
Foram criadas escolas - cerca de 13 mil, desde o pré-escolar ao ensino superior, para quase 12 milhões de estudantes -, alargou-se o ensino obrigatório para nove anos, ofereceu-se bolsas de estudo aos melhores, para que fossem para o estrangeiro e regressassem à Coreia para transmitir o conhecimento adquirido. Passados 40 anos, o analfabetismo foi erradicado e a maioria dos jovens frequenta a universidade.
Ser competitivo não é sinónimo de individualismo, continua Kang, porque os coreanos têm sentido de colectivo. Por isso não existem taxas de abandono nem de insucesso. Quando um jovem não consegue acompanhar a matéria, os colegas e o professor envolvem-se na sua recuperação. Um bom aluno pode ficar responsável por ajudar o mais fraco e ser mesmo penalizado nas suas notas se o outro não recuperar, conta o assessor.
"É muito raro alguém reprovar", continua Kang, que lembra os seus tempos de estudante, quando os professores davam reguadas aos piores. Actualmente, é proibido bater nos alunos. Mas "é comum encontrar crianças de castigo com os braços para o alto e o rosto virado para a parede", lê-se na revista brasileira Veja.

Dez horas de aulas para
80 por cento das crianças
Além do tempo que despendem na escola, os alunos, desde o 1º ciclo, têm imensas actividades que se podem prolongar até muito tarde. Não fazem só desporto e música, mas têm explicações para serem sempre cada vez melhores. Em algumas escolas, os alunos chegam mais cedo para rever a matéria do dia anterior. Segundo a Veja, 80 por cento das crianças coreanas passam pelo menos dez horas diárias numa sala de aula, seja na escola ou num instituto particular. É um país que "tem na formação de cérebros o principal motor da sua economia", escreve a revista.
Só existem exames nacionais no final do secundário. Os alunos são classificados anualmente e os seus resultados são avaliados pelas universidades, quando chegam ao final do secundário. As universidades mais conceituadas fazem "caça" aos melhores alunos, quando eles ainda estão no secundário, refere a Veja. Existe uma instituição que reservou um terreno onde pretende colocar estátuas de bronze dos futuros prémios Nobel, a escola tem a certeza de que eles serão produzidos nas suas salas de aula, acrescenta a revista.
A passagem para o ensino superior é um marco. Uma vez lá dentro, os jovens descontraem e encontram tempo para realizar outras actividades, refere o assessor da embaixada em Portugal. Nas suas opções, os jovens continuam sempre a competir e querem ser os campeões, seja em jogos de computador ou em salas de karaoke. Contudo, não se podem distrair. Têm de continuar a estudar porque as principais indústrias e empresas procuram os melhores, antes de terminar os cursos.
A pressão é imensa, mas são poucos os jovens que não lhe resistem e cometem suicídio, garante Kang. Embora a Coreia seja o quarto país do mundo com uma das mais altas taxas de suicídio, são os mais velhos que o praticam - segundo dados da OCDE de 2003, na Hungria 23 em cada cem mil pessoas suicidaram-se, ao passo que na Coreia foram 18 em cada cem mil.

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