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Público - 27 Abr 05
Governo quer melhorar formação para o ensino da Matemática
Professores têm baixas expectativas em relação aos alunos. O que,
em parte, explica os fracos resultados dos estudantes. Governo
apresenta resultados portugueses no PISA e divulga algumas medidas
para combater o insucesso. O PÚBLICO foi ver como funcionam os
sistemas de ensino finlandês e coreano, que estão à cabeça da lista
de 41 países que participam no estudo. Por Bárbara Wong
O Ministério da Educação
pretende melhorar as condições de formação dos professores para o
ensino da Matemática, de maneira a que os alunos consigam melhores
resultados. Cerca de um terço dos estudantes portugueses com 15 anos
têm níveis de literacia a Matemática muito baixos, revela o
Programme for International Student Assessment (PISA), um estudo
internacional que avalia as competências dos alunos de 41 países, já
divulgado em Dezembro.
A tutela quer alterar este cenário com medidas concretas, que vão
ser hoje apresentadas, numa sessão pública com a presença do
primeiro-ministro, na Escola Secundária da Amadora. O ministério vai
também apresentar o trabalho realizado pelo Gabinete de Avaliação
Educacional (Gave), sobre os resultados portugueses, no PISA, um
estudo internacional da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE).
Portugal continua a ocupar um dos últimos lugares do ranking. O
relatório do Gave chama-lhe "um desempenho modesto", quando
comparado com os valores médios dos outros países - os resultados
portugueses estão acima dos da Grécia, Turquia ou México.
Nível de literacia igual
ou inferior a 1
Cerca de um terço dos estudantes portugueses têm um nível de
literacia matemática igual ou inferior a 1 - numa escala de 1 a 6,
sendo que 1 corresponde a tarefas básicas, como responder a questões
em que é apresentada toda a informação necessária para resolver um
problema. A média da OCDE é 21 por cento. Quanto aos estudantes que
conseguem os melhores resultados (nível 5 ou 6), apenas cinco por
cento dos portugueses está nesse grupo, comparativamente aos 15 por
cento de jovens da mesma idade.
"Pela primeira vez, o Governo assume os resultados e vamos tirar as
decisões políticas para melhorar esta situação", anunciou ontem a
ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, em conferência de
imprensa.
Para já, o ministério quer "melhorar as condições do ensino da
Matemática", nomeadamente as de formação dos professores para que
melhor ensinem a disciplina, sobretudo os do 1º ciclo.
Deste modo, a tutela quer alterar parte da imagem que o PISA
fotografou: os professores portugueses têm baixas expectativas em
relação aos alunos, são absentistas e resistentes à mudança. Tudo
isto tem um "impacto negativo real nas aprendizagens" dos jovens,
observa o relatório do Gave.
Além disso, as aulas não são monitorizadas. Apenas cinco por cento
dos alunos da amostra frequentam escolas em que tal acontece,
enquanto a média da OCDE é de 61 por cento. Lurdes Rodrigues
reconhece que, embora não haja "tradição", é possível tomar medidas
nesta área.
É ainda necessário organizar a gestão dos recursos disponíveis nas
escolas, acrescenta a governante. A medida já foi anunciada por José
Sócrates: ocupar os alunos durante os furos e faltas dos
professores, através da subsitituição de aulas ou com actividades de
acompanhamento.
Mais investimento
e monitorização
Segundo o PISA, os resultados dos alunos portugueses ficam aquém da
despesa feita por estudante. Se se comparar os dados de Portugal com
os da Coreia, nota-se uma "enorme disparidade" entre os desempenhos
médios dos jovens e a despesa em educação, aponta o relatório do
Gave - a Coreia gasta 32 mil e Portugal cerca de 38 mil euros com
cada aluno dos seis aos 15 anos de idade.
No entanto, a governante defende que apesar de haver "uma parte do
problema" do insucesso a Matemática que pode ser resolvido
racionalizando a rede de escolas e os recursos, "há outra que exige
mais investimento". "No geral, em educação, ciência e conhecimento
os melhores resultados são sempre associados a mais investimento",
reconhece Lurdes Rodrigues.
Os resultados dos alunos têm uma enorme relação com o nível de
educação dos pais, por isso, é necessário investir na "melhoria das
qualificações das populações adultas", acrescenta a ministra.
Algumas das medidas podem ser aplicadas de imediato. Embora não
especifique, Lurdes Rodrigues garante que "não é preciso fazer
grandes reformas, mas dar passos coerentes e consistentes". Por
isso, o Governo tenciona propor alterações à Lei de Bases do Sistema
Educativo, para introduzir medidas que contemplem a autonomia das
escolas e alargar a escolaridade obrigatória aos 18 anos.
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