Público - 27 Abr 05

 

Sair do fim da tabela

José Manuel Fernandes

 

Sem uma escola onde se trabalhe e se aprenda os resultados do sistema educativo não melhorarão

Os maus resultados que os alunos portugueses obtêm em estudos internacionais comparativos, como o PISA, não são novidade. São é preocupantes, como preocupante é a incapacidade para evoluir não só na tabela como, sobretudo, em resultados absolutos. Ora para evoluir não há como estudar os bons exemplos, as histórias de sucesso, e tentar extrair desse estudo ensinamentos aplicáveis em Portugal. Ou seja, descortinar as melhores práticas e tratar de as aplicar.
Entre os países que regularmente obtêm bons resultados encontramos a europeia Finlândia e a asiática Coreia do Sul - dois países onde os bons resultados do sistema educativo andam a par com um crescimento económico fora de comum. Nesta edição o PÚBLICO apresenta algumas pistas para perceber as raízes do seu sucesso que merecem reflexão, até porque há pontos de convergência e pontos de divergência.
Comparando connosco, podemos tirar uma primeira conclusão: o nosso problema não é falta de investimento público. De acordo com os últimos números da OCDE o Estado português gasta 5,8 por cento do PIB em educação, o mesmo que a Finlândia e mais do que a Coreia. Decompondo os números verificamos mesmo que o investimento no ensino básico e secundário - os níveis abrangidos pelas provas comparativas - é maior em Portugal: 4,2 por cento do PIB entre nós, 3,7 na Finlândia e 3,5 na Coreia.
O nosso problema também não é falta de professores: as nossas turmas têm em média, nesses níveis de ensino, menos de 15 alunos, contra cerca de 17 na Finlândia e mais de 30 na Coreia. Será a motivação salarial dos professores? Aí ganhamos à Finlândia, onde os ordenados médios dos professores, por comparação com o resto da população, são inferiores aos nossos, mas perdemos para a Coreia, cujos professores são muito bem pagos mas têm de enfrentar turmas bem maiores.
Destas comparações confirmamos a percepção de que o problema não é dinheiro nem falta de recursos humanos, mas percebemos que temos problemas de organização e problemas de atitude cultural.
A estabilidade do corpo docente é importante para os bons resultados finlandeses e coreanos, sendo que essa estabilidade se consegue em boa parte responsabilizando as escolas pela escolha dos seus professores. Lá não há concursos centralizados e "cegos", mas equipas de gestão que escolhem os docentes que melhor se adaptam às suas necessidades, equipas de gestão essas que têm de prestar contas perante as comunidades locais e os pais.
A atenção que os pais dão à educação dos seus filhos é também crucial. Na Coreia isso traduz-se numa hipercompetitividade que faz com que, entre as aulas na escola oficial e as aulas extra, os alunos possam ter de trabalhar dez horas por dia. Na Finlândia é o gosto pelos livros e pela leitura, alicerçado numa necessidade de afirmar a sua identidade através da língua própria de um povo que ganhou tarde a sua independência e onde, como notou Manuel Castells, os sentimentos patrióticos são um dos factores do sucesso do modelo de desenvolvimento.
Por fim notamos que não há receio de assumir que no sistema de ensino se tem mesmo de adquirir conhecimentos, até porque são as universidades que depois seleccionam os alunos, não se limitam a "recebê-los". Isto pode dispensar exames intercalares como os que agora se anunciam, mas exige algo que Portugal está muito longe de ter, como sublinha Fátima Bonifácio: uma visão da escola "antes de mais como um lugar onde se trabalha e aprende".

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