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Público - 19 Abr 05
Uma escola sem rei nem roque
Uma política educativa assente em teorias pedagógicas mal testadas e
decorrentes de uma crença infundada no mito do "bom selvagem" de
Rosseau permitiu que a escola fosse tomada de assalto por bandos de
rufias, que, por ausência de autoridade, acabaram por conquistar o
poder de facto, pois são os únicos que podem usar a força para impor
as suas leis.
Só eles têm autoridade para bater, esmurrar, esfaquear ou pontapear
quem quer que seja: professor, funcionário ou aluno. E se algum
aluno tentar encontrar protecção num professor ou num funcionário
rapidamente aprende quão frágil e ilusório é o poder destes.
O estatuto do aluno do ensino não superior, aprovado pelo anterior
governo, foi um esboço de tentativa de inverter este estado de
coisas. É precisamente este estatuto que Albino Almeida, presidente
da Confederação Nacional das Associações de Pais, quer agora que o
ministro revogue. E qual é a solução alternativa que propõe para
resolver os problemas mais graves de indisciplina? É o modelo sueco.
O aluno é traficante de droga? Agride violentamente professores e
colegas? Obriga os mais novos a dar-lhes o dinheiro que trazem para
a escola? Violou alguma colega? Esfaqueou um funcionário? Toda a
gente o quer ver dali para fora? Não é necessário, diz Albino
Almeida, no PÚBLICO. Basta colocar o aluno no bar da escola que o
problema fica resolvido. Não se ria, caro leitor, porque a proposta
assenta num raciocínio difícil de rebater: se o aluno é bom a vender
droga, também deve ser bom a vender bicas...
A maioria dos pais hodiernos pertence a uma geração (de que Albino
Almeida é o representante fiel) fruto de uma época (anos 60-70) em
que se idolatrava o aluno insolente, baldas e marginal e se
desprezava o aluno aplicado, trabalhador, cumpridor e educado.
Não é, por isso, de estranhar que a participação dos pais nas nossas
escolas tenha dado um contributo decisivo não só para o decréscimo
da qualidade do ensino como para o aumento da indisciplina e da
violência nas nossas escolas. A maioria dos pais só vai à escola por
duas razões: ou para pressionar os professores a dar notas mais
altas ao seu filho ou para pedir satisfações ao professor ou
funcionário que ousou levantar a voz contra o seu filhinho.
Mas há uma coisa que as pessoas têm de perceber: a escola não pode
ser nem uma casa de correcção nem uma prisão. Para se pertencer à
comunidade escolar, uma pessoa tem de aceitar e de se sujeitar às
regras de funcionamento da própria comunidade. Os alunos "normais"
(entendendo por normal comportamentos próprios da irreverência da
idade) não podem ser vítimas nem os ratinhos da Índia de
experiências pedagógicas de resultado duvidoso ou de programas de
ressocialização de delinquentes. É fundamental que a escola proteja
os alunos que aceitam as regras da comunidade, porque só assim
aprenderão a confiar nas instituições (...)
Santana-Maia Leonardo
Ponte de Sôr
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