Outra
vez o aborto
No próximo dia 20 de
Abril, a Assembleia vai voltar a discutir o aborto.
Estão agendados cinco diplomas e exige-se a
realização urgente de um referendo sobre uma questão
que divide ao meio a sociedade portuguesa.
Num país onde
os números da pobreza – dois milhões de pobres e 200
mil pessoas que passam fome – persistem em não
descer (vd. Bruto da Costa, in Público, 21/3/2004),
com a economia engasgada e o desemprego a subir, é
curiosa a prioridade da nova esquerda parlamentar.
Portugal está deprimido e à deriva, mas o poder
político emergente entende que o mais urgente é
referendar a IVG, dando um ”passo na direcção certa,
na direcção da modernidade do nosso país”, como
afirmou José Sócrates na apresentação do Programa do
Governo.
Mas vejamos o que está em causa. Da análise dos
projectos legislativos do PCP, BE, PEV e PS resulta
claro que o objectivo, na prática, é liberalizar o
aborto até às dez semanas. De forma subliminar,
vai-se até mais longe: por ”razões de natureza
económica ou social” permite-se o aborto nas
primeiras dezasseis semanas (vd. proposta do PS para
o art. 142º, n.º 1, c) do C.Penal).
Se o verdadeiro objectivo fosse terminar com os
julgamentos das mulheres ”vítimas” teria tido melhor
sorte a recente proposta de duas deputadas da
bancada socialista, ou até a solução ”salomónica”
avançada pelo actual MNE: despenalizar a mulher que
aborta, mas manter o aborto como crime, o que
passaria pela introdução de uma presunção ilídivel
(admite prova em contrário) de estado de necessidade
desculpante.
Convém recordar que mesmo que se optasse pela
liberalização do aborto até às dezasseis semanas os
mediáticos julgamentos continuariam, a não ser que
se pretenda não julgar sequer as mulheres que
pratiquem aborto para além daquele prazo.
O tema é delicado e o drama é real. Apesar de tudo,
parece-nos importante que o Sistema Jurídico
mantenha o aborto como crime. É hoje reconhecida a
importância pedagógica do Direito Penal para o
reforço da confiança da comunidade na vigência das
normas que protegem os bens jurídicos. O bem supremo
é a vida humana, sem ela não há liberdade. A defesa
da vida implica um regime legal coerente e coercivo,
mesmo que isso implique por vezes aplicar penas de
privativas da liberdade. O regime legal vigente já
permite evitar a condenação e mesmo o julgamento
sempre que a culpa subjectiva não exista ou seja
diminuta: o juiz pode não aplicar ou suspender a
pena, como quase sempre tem acontecido, ou suspender
o processo.
Refira-se, ainda, que está hoje demonstrado que nos
países onde mais se avançou na liberalização se
verificou um aumento no número global de abortos,
banalizando-se a respectiva prática.
Por outro lado, é demagógico pretender misturar a
causa da liberalização do aborto com a defesa dos
direitos da mulher. A mãe grávida é a primeira a
intuir e a experimentar, antes de qualquer
demonstração científica ou filosófica, que o que tem
dentro de si é uma nova vida, o seu filho. E é por
isso que o aborto, mesmo que legalizado, é para ela
sempre uma experiência traumatizante, que deixa
marcas muito difíceis de apagar. O aborto é, antes
de mais, uma agressão a uma vida inocente, mas é
também uma agressão à própria mulher e à sua vocação
mais profunda. Como ensinou Norberto Bobbio ”No caso
do aborto há ”outro” no corpo da mulher. O suicida
dispõe da sua própria vida. Com o aborto dispõe-se
de uma vida alheia”.
Uma segunda consequência ressalta das propostas
apresentadas pela esquerda radical: o dever dos
estabelecimentos públicos de saúde se organizarem
para que todas as mulheres possam aceder livremente
ao aborto ”despenalizado” (vd. art. 6.º do Projecto
de Lei do PS). Ou seja, o caminho proposto para o
drama do aborto clandestino é torná-lo legal e pago
com dinheiros públicos. O que está, pois, em causa é
que cada um de nós possa continuar a ver o Estado
como ”pessoa de bem”, sabendo que os seus impostos
são usados para promover maior justiça social e não
para eliminar vidas incómodas, por ”razões
económicas e sociais”, num qualquer hospital
público.
Devemos continuar a combater as verdadeiras causas
do aborto, não desistir de lutar para que todas as
crianças sejam desejadas e amadas, promovendo uma
sexualidade informada e responsável. Não podemos
capitular na exigência de que o Estado cumpra o seu
dever: garantir que todas as crianças concebidas
possam chegar a ver a luz do dia.
Paulo Lopes Marcelo, docente da Faculdade de Direito
de Lisboa e consultor jurídico, assina esta coluna
quinzenalmente à quinta-feira.
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