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Expresso - 7 de Abril
Factos e suposições
João Carlos Espada
«No espaço aqui disponível não é possível discutir conclusões que exigiriam uma análise muito mais detalhada. Mas é possível dizer com segurança aquilo que Peter Berger, um dos mais conceituados sociólogos norte-americanos da religião, tem citado repetidamente: a tese que apresenta o declínio da religião como um facto inelutável das sociedades modernas tem de admitir que, pelo menos no caso americano (e, segundo Berger, em muitos países industrializados, com excepção da Europa ocidental), esse 'facto' não corresponde aos factos.»
CAUSARAM alguma surpresa nos meios de comunicação social os resultados de um estudo, promovido pelo Instituto de Ciências Sociais sob coordenação dos professores Manuel Villaverde Cabral e Jorge Vala e integrado numa investigação da Fundação Europeia para o Estudo dos Valores, sobre os valores e comportamentos dos portugueses. Entre os resultados mais citados como surpreendentes encontra-se a confiança depositada na Igreja (a instituição nacional que merece mais confiança) e a importância que Deus desempenha na vida dos portugueses: 63% consideram que é «extremamente importante», contra 37% nos restantes países da UE.
Limito-me aqui a citar o que os jornais referiram. E não me proponho retirar daí quaisquer conclusões. Acontece apenas que, no último número da revista «The Public Interest», a historiadora norte-americana Gertrude Himmelfarb escreve um artigo sobre um inquérito semelhante aos valores dos norte-americanos. À luz desses resultados, os resultados portugueses, que foram considerados surpreendentes, deixam de ser tão surpreendentes. Ou, se se preferir, os resultados americanos passam a ser tão ou mais surpreendentes do que os portugueses.
Os dados constam de um gigantesco inquérito sobre o papel da religião na vida americana («For Goodness Sake: Why So Many Want Religion to Play a Greater Role in American Life», Public Agenda 2001). Entre muitos outros tópicos, o inquérito revela que 70% dos americanos querem que a religião tenha «maior influência na sociedade americana». Destes, 76% acrescentam que não é importante definir qual seria a religião a deter maior influência (apenas um em cinco considera que devia ser a sua). 69% dizem que «mais religião é a melhor forma de fortalecer os laços familiares e o comportamento moral»; 80% rejeitam o ponto de vista segundo o qual «a nossa sociedade ficaria bem se muitos americanos abandonassem a sua fé religiosa».
Uma percentagem muito elevada considera que muitos aspectos específicos da vida americana melhorariam com mais religião: 85% pensam que os pais educariam melhor os filhos; 79% acham que o crime diminuiria; 69% dizem que o «materialismo e a ganância» diminuiriam. O tópico onde se revela maior cepticismo acerca dos efeitos da religião diz respeito aos políticos: apenas 49% consideram que eles se tornariam mais honestos se fossem mais religiosos.
Um aspecto curioso reside nas respostas dos jornalistas, cuja fé religiosa é menor. Ainda assim, uma elevada percentagem parece aceitar os efeitos benéficos da religião: 76% pensam que haveria menos crime se as pessoas fossem mais religiosas; 77% dizem que haveria mais civilidade, 79% que haveria mais compaixão. Finalmente, 73% concordam que «é uma má ideia que as famílias eduquem as crianças sem qualquer religião».
No espaço aqui disponível não é possível discutir conclusões que exigiriam uma análise muito mais detalhada. Mas é possível dizer com segurança aquilo que Peter Berger, um dos mais conceituados sociólogos norte-americanos da religião, tem citado repetidamente: a tese que apresenta o declínio da religião como um facto inelutável das sociedades modernas tem de admitir que, pelo menos no caso americano (e, segundo Berger, em muitos países industrializados, com excepção da Europa ocidental), esse «facto» não corresponde aos factos.
Não deixa de haver aqui uma certa ironia: é que essa tese está em regra associada a uma confiança absoluta na ciência e na possibilidade de a ciência explicar tudo sem recurso a suposições. Todavia, os factos norte-americanos mostram que a tese do declínio inelutável da religião é uma pura suposição.
E-mail: jcespada@netcabo.pt
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