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Associação
Portuguesa das Famílias Numerosas, 13/Abr/00
Painel
"Família
e Educação"
Intervenção
de Fernando Castro
Exma
Sra Dra Teresa Gaspar, representante do Ministro da Educação
Exmos
Srs Prof. Doutor César das Neves, Dra Rosário Carneiro e Dra Fátima
Fonseca
Minhas
senhoras e meus senhores
Dando continuidade à serie de conferências e colóquios que
a APFN está a promover sobre temas relacionados com a Família, vamos
hoje falar sobre Educação.
Quero agradecer em primeiro lugar a disponibilidade
manifestada pelos Srs. Prof. Doutor César das Neves, Dra Rosário
Carneiro e Dra Fátima Fonseca em participar nesta reflexão sobre um
tema que é tão importante para nós. Em vós, e em particular na Dra.
Rosário Carneiro e Dra. Fátima Fonseca, mães de famílias numerosas,
quero prestar a homenagem da APFN a todos os pais portugueses, de famílias
numerosas ou não, que, contra tudo e contra todos, continuam a procurar
educar os seus filhos no sentido de serem Homens e Mulheres, no
verdadeiro sentido da palavra.
Quero também agradecer a presença dos representantes dos
partidos políticos que aceitaram o nosso convite, o que muito nos
honra, mostrando, assim, com atitudes concretas, que não aparecem
apenas em vésperas de actos eleitorais. E é de atitudes concretas que
as famílias portuguesas esperam dos nossos políticos. Peço-vos
desculpa, mas não posso deixar de afirmar que estamos fartos de dialética,
e a dialética não nos ajuda a pagar as facturas da mercearia, das
escolas nem dos transportes.
Agradecemos, também, a presença dos órgãos de comunicação
social. É enorme a vossa importância na educação dos nossos filhos.
Esperamos que tomem consciência dessa enorme responsabilidade que vos
cabe e todos, sem excepção, adoptem uma atitude responsável e mais
consciente na divulgação e tratamento da informação que transmitem.
O facto de existirmos numa sociedade bastante competitiva não
justifica, de forma alguma, atitudes do tipo "vale tudo", na
ânsia de conquista de audiências.
Julgo que toda a gente pretende viver numa sociedade mais
justa e mais humana. Este objectivo nunca se conseguirá atingir se
permitirmos que as nossas atitudes sejam apenas apoiadas pela "Lei
da Selva".
A todos quantos quiseram testemunhar com a sua presença o quão
importante é este assunto, o nosso muito obrigado. A fim de sairmos o
mais possível enriquecidos, a APFN tomou a iniciativa de tratar o tema
sob a forma de painel, de forma a termos perspectivas de diferentes
pessoas sobre o assunto. Sairemos ainda mais ricos com a vossa participação
no debate que se seguirá às apresentações.
Escuso de falar sobre a importância da educação. Se se
perguntar a alguém na rua se acha que a educação é importante, creio
que a esmagadora maioria das pessoas dirá que sim.
Temos até o privilégio de ter um Primeiro-Mnistro que
frequentemente afirma que é essa a sua paixão.
Por outro lado, toda a gente fala mal da educação:
- São
alunos e professores a manifestarem-se contra o Ministério;
- São
alunos a queixarem-se dos professores e os professores a
queixarem-se dos alunos;
- São
as famílias a queixarem-se das escolas e as escolas das famílias.
E, no meio desta algazarra,
uma enorme quantidade de gente a assistir, a tomar o partido de A ou B,
outros a relatarem e a comentarem, como se não tivessem nada a ver com
isso, como se de uma monumental partida de futebol se tratasse, em que há
uns que são jogadores, outros que são árbitros, outros são
espectadores e, finalmente, outros ganham a vida a relatar, comentar,
escrever e organizar mesas redondas.
Minhas senhoras e meus senhores:
Nesta
matéria, todos somos jogadores!
Pais, professores, políticos, órgãos de comunicação
social, empresas, todos são responsáveis pela educação.
Citando alguns exemplos:
1 - Um canal de televisão mostra, horrorizado, cenas de violência
extrema numa escola, em que um aluno dispara contra tudo e contra todos,
matando e ferindo quem teve o azar de estar perto. Esse canal só emite
filmes para adultos depois das 22.00 ou das 24.00. Mas desde manhã até
à noite, ao longo de toda a semana, passa spots de publicidade a esse
"tal filme" ou essa "tal reportagem", com os bocados
mais "suculentos", onde são frequentes grandes planos de
pessoas serem crivadas de balas com tudo a saltar as pedaços!
2 - Desde quando é autorizada a passagem de filmes pornográficos
descodificados, como se passa na TV Cabo? Isso até é mundialmente
proibido nas emissões por satélite.
3 - A pedofilia é reconhecida nacional e internacionalmente
como crime. Mas as revistas juvenis para adolescentes trazem respostas
ao correio dos leitores, com explicações detalhadas sobre as diversas
modalidades e variantes de sexo, com a recomendação "Mas não
fales com os teus pais, porque eles não percebem nada disso...".
É claro que não percebem mesmo nada. Para esses conselheiros de
adolescentes, com toda a certeza as criancinhas nasceram todas de geração
espontânea e os pais são um inimigo a abater! Numa situação destas,
em que ambos os agentes são menores, não existe pedofilia? E os ditos
conselheiros, que estimulam isso, não podem ser condenados pelo crime
de pedofilia? Num crime, é tão criminoso quem o comete, como quem o
instiga ou o oculta! Porque razão, quando se fala na questão de
gravidezes em adolescentes, o que vem à cabeça dos responsáveis deste
país é a distribuição de pílulas para o "antes de...", de
preservativos para o "durante..." e de pílulas do dia
seguinte para o "depois de...". Porque é que é considerado
piroso ensinar os adolescentes o "em vez de...". Não é o método
verdadeiramente eficaz para reduzir ou acabar com este problema?
4 - Toda a gente acha que as pessoas devem ter um trato
educado (a recentemente descoberta "educação para a
cidadania"), mas muitos que falam e apregoam a tal
"necessidade de educação para a cidadania" são de uma
enorme má educação quando se referem aos seus antagonistas. E não é
apenas nas múltiplas mesas redondas sobre futebol!
5 - Toda a gente reconhece que o assédio sexual deve ser
combatido, mas quem lê os jornais e revistas, liga a televisão, ouve rádio
e vê anúncios fica com a ideia que sexo é a única forma de
relacionamento entre homem e mulher e que é o máximo que se pode
esperar da vida.
Poupo-vos a enumerar mais exemplos, de todos conhecidos.
Como educar jovens nesta sociedade?
A educação baseia-se em princípios. Quais são os princípios
em que se baseia hoje a sociedade portuguesa?
Será que alguém acha que a cultura portuguesa deve ser
substituída "depressa e em força" por uma "cultura
europeia"?
Mas isso existe, ou alguma vez existiu?
Não sabem que a Europa não passa de uma enorme arena de
confronto de culturas? E, normalmente, de confrontos violentos, onde
muitos milhões de pessoas perderam a vida no milénio que está a
terminar?
As famílias portuguesas e, em particular, as mais numerosas
exigem uma resposta rápida e firme a estas questões, a ser dada por
toda a sociedade.
As famílias portuguesas exigem ser tratadas como famílias
europeias que são, com condições para poderem educar convenientemente
os seus filhos.
As famílias portuguesas não conseguem perceber como é que
há tanto dinheiro para o combate ineficaz de tantos resultados
de falta de "educação para a cidadania" e nada é feito para
dar melhores condições aos pais para ter maior disponibilidade para os
seus filhos.
Em particular, a APFN pede que o Ministério da Educação
adopte algumas medidas muito simples, que se reflectem muito
negativamente nas famílias numerosas:
1 - Acabar de vez com as frequentes reformas de ensino. Não
aceitamos que os nossos filhos sejam tratados como cobaias. É
verdadeiramente impossível podermos acompanhar os estudos dos nossos
filhos e melhor os orientarmos na sua carreira escolar no meio de tanta
reforma.
2 - Acabar de vez com a negociata dos livros escolares.
Porque é que têm que mudar de livro de ano para ano, fazendo com que não
os possamos passar de um irmão para outro, ou para um primo, ou um
amigo?
3 - Porque é que os livros escolares têm que ser de edição
de luxo? Há formas bem mais baratas de criar as edições.
4 - Publicitar a correlação entre classificações dadas
pelas escolas e as obtidas pelos mesmos alunos nos exames nacionais, de
modo a esclarecer os pais e o país sobre a taxa de inflação nas notas
praticada por cada escola.
5 - Fomentar a criação de regimes de "tempo
parcial" para as crianças nas creches e estabelecimentos de ensino
pré-escolar, de modo a não obrigar a que todas as crianças tenham que
lá estar de manhã até à noite, mesmo na situação em que um dos
pais decidiu desempregar-se a fim de melhor acompanhar a educação dos
seus filhos. Como é óbvio, nesta situação, bem desejável, de
"meio tempo", só se deverá pagar meia mensalidade.
Para todos (políticos, órgãos de comunicação social,
professores), apenas uma mensagem:
Lembrem-se que todos somos responsáveis pela educação dos
jovens e crianças portuguesas, que estarão na idade de trabalhar
quando atingirmos a idade de reforma. Eles actuarão para connosco de
acordo com os princípios (ou falta de princípios) que lhes ensinarmos.
Ninguém pode ficar impávido e sereno, qual espectador, a assistir ao
que se está a passar, porque disso vamos todos ser vítimas.
O apoio às famílias, e em particular às famílias
numerosas, é indispensável para a construção de uma sociedade solidária,
de respeito de uns pelos outros, enfim, a tal sociedade que todos
dizemos que gostaríamos de ter. |