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Associação
Portuguesa das Famílias Numerosas, 13/Abr/00
Painel
"Família
e Educação"
Intervenção
da Dra. Fátima Fonseca
Introdução-
...fazer uma intervenção a esta hora da noite, já depois de dois
brilhantes ...levou-me a pensar que... e assim, falarei apenas de três
Ts:
Tamanho,
Tecido e Tempo!
1.
Tamanho da Família
Por
muito paradoxal que pareça à primeira vista, diria que de modo geral,
é muito mais fácil educar uma família numerosa do que uma família
pequena.
Em primeiro
lugar, porque os Pais têm uma labuta tão grande e tão longa para
conseguir criar a sua família, que não lhes sobra muito dinheiro, nem
muito tempo, para gastarem só consigo próprios, de forma egoísta, nem
para se entregarem a imaginações doentias, ou a aventuras, que
eventualmente possam ameaçar a estabilidade e unidade familiar.
Em
segundo lugar, porque nos tempos de hoje, numa casa cheia de gente que
se ama, dificilmente pode haver rotinas excessivas, regras pesadas ou
aborrecimento duradouro. Pode haver discussões e divergências,
desencontros e dificuldades, mas há sempre um dinamismo próprio, de
claro sentido positivo, que compromete todos e cria redes de afectos e
cumplicidades, naturais e solidárias.Ora são as explicações, ora as
trocas e empréstimos de roupa e dinheiro, ora os petiscos, os conselhos
dos irmãos mais velhos e os múltiplos gestos de entreajuda, nas horas
difíceis, do um por todos e todos por um.
Em
terceiro lugar, porque entre Pais e Filhos, aparecem sempre os irmãos,
que interagem, facilitando aprendizagens e interiorizações,valores de
sociabilização, partilha e cedência, educação de sentimentos e
vontades, num processo educativo gradual, sem o sufoco emocional, nem o
desgaste obsessivo próprio dos filhos únicos e de seus pais.
E
assim, satisfazer as necessidades de carinho, segurança, saúde,
higiene, alimentação, fomentar a noção de pertença, confiança e
auto-estima, estimular a autonomia, o sentido de responsabilidade e a
capacidade de superação, incentivar às pequenas e grandes descobertas
, transmitir crenças, valores e convicções, tudo isto representa um
programa imenso e inesgotável, de vida, que se multiplica por cada
filho que nasce e atravessa todas as gerações e idades,
manifestando-se no ciclo de alegrias e tristezas, festas e lutos,
sucessos e fracassos, da vida duma família e para toda a vida!
Educar
uma Família Numerosa converte-se assim, quase caricaturando, num
projecto capaz de levar um Pai e uma Mãe a chegarem ao fim da vida de
língua de fora- passe a expressão- ou se preferirem, como um
limão bem espremido, porque é de facto uma história interminável,
sim, mas que vale a pena viver, dá sentido à vida e preenche a vida de
todos.
2.
Noção de Tecido
Há
algumas semanas atrás, na festa dos 50 anos de uma amiga de longa data,
no seu discurso à Família e aos amigos, dizia ela que se sentia grata
a todos pelo dom da vida e por aquilo que é, porque se sentia como um
tecidoformado pelo entrelaçar de todos nós e por isso todos lhe
éramos importantes e essenciais. Também eu queria hoje recordar esta
belíssima imagem e aproveitá-la, para vos dizer, como todos sabem, que
em Educação muitos são também os tecelães e os fios que
constituem o eu de cada um e o nós que todos juntos
formamos. Os pais são de facto os primeiros e principais responsáveis,
mas depois vem a Escola e os amigos e conhecidos que se cruzam connosco
ao longo da vida, e no fundo toda a sociedade interage de diferentes
formas e com diferentes efeitos.
Com
efeito, somos herdeiros de uma cultura comum- uma pátria, uma língua,
uma História, hábitos , valores e conhecimentos- e somos chamados a
reavaliar, repensar, reviver alguns dos aspectos que mais nos tocam,
para depois nós próprios recriarmos um património de afectos,
valores, saberes e competências , que igualmente deixaremos em herança.
E no mundo gigantesco e sem limite da História que herdamos, que
fazemos e passamos aos nossos filhos, é quase como se nós Pais estivéssemos
sobre um palco, durante algum tempo,para fazermos as nossas opções,
construirmos os nossos projectos numa partilha de influências recíprocas,
e os transmitirmos aos nossos filhos, a quem depois, gradual ou
abruptamente, acabaremos por deixar sós em cena também.
E
é precisamente durante todo este processo de transmissão de valores,
que todos nós, Pais e Educadores, encontramos grandes dificuldades: em
primeiro lugar, porque nós próprios estamos sempre em processo dinâmico
de auto-educação- mesmo que de tal não nos apercebamos- e portanto
somos susceptíveis de melhorar ou piorar enquanto pessoas, pelo que nem
sempre conseguimos ser o paradigma de coerência que os nossos filhos
merecem e precisam;
em
segundo lugar, porque não vivemos em redomas e precisamos da Escola e
do resto do mundo, de diversas maneiras, para nos ajudar a educar os
nossos filhos.
A
Escola porém, é por seu turno, um mundo complexo de ideias, pessoas e
coisas, frequentemente tão antagónicas entre si, que geram conflitos e
violência, não conseguindo corresponder, as mais das vezes, aos justos
anseios e expectativas de muitas Famílias.
Por
isso tanta falta faz o chamado cheque-educação, que nos
permitiria escolher a Escola da nossa preferência, seguindo critérios
de Projecto, Qualidade, Acessibilidade e Custos. Só assim de facto,
poderíamos falar de uma efectiva Liberdade de Ensino, como já
acontece em diversos países europeus e estados americanos.
Por
outro lado, uma outra esfera, que ultrapassa o tempo e o espaço da Família
e da Escola, atravessa e fractura de forma permanente a Educação que a
muito custo tantos pretendem dar aos seus filhos: trata-se como todos
sabemos, do mundo do audiovisual, das novas tecnologias, computadores e
Internets, que veicula mensagem de todo o tipo em cascata e catadupa.
Na
verdade, dizemos que somos os primeiros e principais Educadores dos
nossos filhos, por direito e por dever,mas na prática, vale a pena
pensar em como cada vez mais se nos torna difícil e até impossível,
controlar o que os nossos filhos vêem, ouvem, aprendem e copiam, na
rua, na TV,no cinema, na rádio, jornais, revistas,etc.
E
não somos poucos os Pais, que nos perguntamos, com alguma angústia,
como vacinar os nossos filhos, para os proteger de todos os males
que os ameaçam, cada vez mais e cada vez mais precocemente.
Algumas
vozes dirão, que os filhos terão de estar informados e aprender à sua
própria custa. Outros porém- e incluo-me nesse grupo- pensamos que não
basta informar, formar, falar... é preciso actuar, e por isso nos
juntamos, nos associamos, porque há que responsabilizar a sociedade e
pedir ajuda a quem a pode dar.
Na
verdade, não é justo que se culpem Pais e professores, sempre que
alguma coisa corre mal com as crianças e os jovens!
Concretamente, também os políticos, filósofos, escritores,
realizadores, produtores, artistas e agentes económicos, todos são
responsáveis pelo actual estado, na medida em que, criam ou não, leis
que favoreçam a família, as suas condições de habitação e de
trabalho, divulgam, ou não, bons espectáculos para os nossos filhos,
permitem ou não, que se vendam bebidas alcoólicas perto das escolas,
ou se ofereçam outro tipo de produtos e atracções fascinantes para as
crianças e jovens, perigosamente minando e anulando todos os nossos
esforços educativos.
Dizia-nos
há alguns dias atrás, o Sr Ministro da Educação, quando teve a
gentileza de nos receber, que a Escola de hoje tem de oferecer a muitas
crianças e jovens, âncoras de inserção e âncoras de coesão,
que eles não conseguem encontrar em casa.
É
verdade que sim, mas para que as famílias possam ser Família e cumprir
com as suas finalidades, necessitam ajuda dos políticos, dos
legisladores e dos teorizadores. Por isso, nos organizamos, nós Famílias
Numerosas, conscientes de que o que conseguirmos para nós, terá
certamente repercussaõ positiva em todas as outras famílias, mesmo não
numerosas, e consequentemente em todo o tecido social.
Estamos
conscientes de que alertando a sociedade civil, para o papel importantíssimo
que as Famílias Numerosas desempenham, ao criar e educar pessoas saudáveis
de corpo e de alma, estamos a prestar um enorme serviço a toda a
sociedade.
3.
Por fim o Tempo!
Essa
categoria, onde diariamente se inscrevem vertiginosamente, as nossas
alegrias e tristezas, os nossos sonhos e esforços, as nossas derrotas e
lutas.
É
sobre este tempo, ritmo da nossa vida, que acredito, cada vez mais
convictamente
, que teremos de actuar, enquanto pessoas, enquanto casal, enquanto famílias,
mas também, mais tarde ou mais cedo, a nível de legislação.
Convido-vos
a um rápido exercício de aritmética simples: às 24h do dia, tiremos
8h de trabalho, 7h de sono,umas 3 h para transportes,e ficaremos com
umas 6h por dia, para família, tarefas diárias habituais e alguma
eventual distracção. Mas desse tempo, quanto será verdadeira e inequívocamente
dedicado a escutar com calma e paciência o outro, ou os
outros, sem nada de permeio, isto é, sem tachos nem panelas, sem
jornais, nem Telejornais, sem novelas, sem rádio e sem telefonemas?
Quanto tempo nos sobra de facto, para dar e receber, para amar e ser
amado, para comunicar dentro da nossa Família?E não sendo apenas uma
questão de quantidade de tempo, pergunto ainda, como conseguir essa
serenidade necessária para reflectir e decidir sobre as coisas
importantes da nossa vida, que não só as urgentes ligadas às compras,
à saúde e ao trabalho?
Os
filhos têm direito a ter Pais que se amem. Mas se os Pais convivem mais
com colegas de trabalho do que entre si, se têm mais gosto e prazer em
estar fora de casa do que em família, se preferem acumular e comprar
mais coisas a ter mais um filho, se chegam a casa completamente exaustos
e incapazes de ver e ouvir alguém, se já não conseguem nem uns
minutos diários de atenção para os mais idósos e os mais sós, quem
é que vai então ensinar aos filhos o que é amar?
Ninguém
pode dar o que não tem, fazer o que não aprendeu. Dificilmente sabe
amar, quando adulto, quem não se sentiu amado quando criança.Por isso
é urgente e é importante arranjar mais tempo para a Família: tempo-
quantidade e tempo- qualidade, de verdade, para preservar os afectos no
casal e na família, que nasce desse amor.
Estou
profundamente convencida de que alguém vai ter de mudar os relógios da
nossa vida! E digo-o com a convicção e a pena de quem frequentemente
se sentiu culpada de não conseguir dar à família todo o tempo , paciência
e atençaõ que mereciam por estar demasiado ocupada com o trabalho!
Alegra-me
saber que não estamos sós, os que pensamos assim!
Recentemente,
num artigo de Nicolau Santos, no Expresso, a propósito dum estudo
encomendado pelo 1º Minº japonês,sobre os Grandes Objectivos para
o Japão do séc XXI, apareciam 9 Propostas para Portugal ganhar
o Futuro.Entre elas não posso deixar de citar duas: Reorganizar a
vida nas cidades e Lançar uma nova política para a Família.
E cito as palavras do jornalista:O ritmo de vida nas grandes cidades
é completamente absurdo, por isso propunha que se criassem
cidades-modelo à volta das grandes metrópoles, servidas por boas ligações
ferroviárias, para descongestionar cidades, diversificar horários de
trabalho, liberalizar horários de comércio entre outras. Ainda a propósito
duma nova política familiar, cito de novo as suas palavrasNão é
possível clamar contra o decréscimo da natalidade e nada fazer para
obviar essa tendência. Propunha por isso, aumentar o período
permitido à Mãe ou ao Pai, para ficar em casa até aos 3 anos do
filho, sem penalização no emprego, bem como deduções fiscais
aumentadas para os pais com filhos em idade escolar, entre outras sugestões.
É
altura de acabar.O tempo esgotou-se. Agradeço a vossa presença e esta
oportunidade para reflectirmos em conjunto!
Ao
terminar, não posso contudo deixar de recordar aqui as palavras
profundas de dois grandes pensadores:
Há cerca de uns 30 anos o Prof Dr
Manuel Antunes, sacerdote e prof universitário, que tive o privilégio
de conhecer, escreveu : Educar para amanhã, não será tanto formar
homens para a ciência e para a tecnologia, mas sim formar pessoas, que
através da ciência e da tecnologia, e para lá da ciência e da
tecnologia, sejam humanistas, filósofos, organizadores, líderes,
animadores espirituais dum mundo que pode já nem saber o que fazer à
sua riqueza material acumulada.
Antoine
de St Exupéry dizia por seu turno:
Sempre
soube distinguir o importante do urgente. Na verdade, é urgente que o
homem coma, porque se não comer, não pode viver e portanto, não pode
pensar, nem pôr-se questões. Mas o amor, o sentido da vida e o Amor a
Deus são mais importantes.
Muito
Obrigada! |