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Associação Portuguesa das Famílias Numerosas, 13/Abr/00

Painel "Família e Educação"

 

Tópicos da intervenção do Prof. Doutor João César das Neves

 

Eu vou falar às famílias numerosas, e em particular à Associação das Famílias Numerosas. E vou falar para ela nas suas duas qualidades:

1) como grupo de pressão;

2) como componente da sociedade

- O segundo elemento é mais importante que o primeiro, mas menos referido.

 

1) Como grupo de pressão perante a escola

- As famílias numerosas sofrem mais do que as outras os defeitos da educação em Portugal e, por isso, a sua pressão deveria ser no sentido de eliminar esses defeitos.

a) a frequência das reformas - o sistema educativo português muda a intervalos regulares. A única reforma que falta fazer é a estabilidade.

- uma família numerosa tem vários filhos em cada uma das reformas do ensino. Já teve propedêutico, PGA, exame nacional, provas específicas...

b) o domínio dos interesses - a educação em Portugal está a ser controlada e ao serviço de interesses que não são os alunos e o ensino. Basta ver as discussões

- Alguns exemplos caiem em cima das famílias numerosas: a impossiblidade de usar os mesmos livros de uns irmãos para os outros é causada pelo negócio chorudo dos manuais escolares. Variar frequentemente o tipo de livro interessa aos professores-autores e às editoras. Penso que não vai mudar.

c) a burocracia estatal - o principal interesse é servido pelo pesado aparelho de Estado da educação, que impede a flexibilidade e a modernização, elimina a concorrência, alimenta os interesses...

- as famílias numerosas manifestam mais claramente a injustiça e a ineficiência do sistema. O deficiente apoio fiscal e a falta do cheque-educação são exemplos de medidas que são muito mais urgentes.

d) a substituição da formação pela informação - hoje o aluno sai do liceu informado sobre as secreções do fígado da vaca, as autarquais locais, as várias organizações internacionais. O que ele não sabe é escrever, multiplicar, pensar...

- O que a escola deveria fazer:

1) linguagem (português, matemática, etc) e

2) bases do conhecimento humano (ciências, história, etc),

3) para obter um espírito curioso, criterioso e ordenado, capaz de enfrentar o mundo com a segurança possível.”

2) Como grupo social perante a sociedade

O papel mais importante da Associação e das famílias, porém, não é como grupo de interesse, a somar a outros. É como fermento social, manifestando à sociedade alguns valores que ela esqueceu.

a) perante o mundo - o elemento mais importante é a manifestação do valor da família, perante um “admirável mundo novo”, que preferiria que as criancinhas viessem por “download” da Internet. É importante ter consciência que, para a maioria da sociedade moderna, uma família numerosa é vítima de acidente.

b) perante os filhos, fazendo educação- Aristóteles diz que uma boa educação é ser “treinado a gostar e a não gostar das coisas devidas” (Ética a Nicómaco II iii 2 (1104b12-13)), citando Platão (Leis, 653 sq.)). Assim, o problema é de gostos. Ou seja, na educação, gostos discutem-se.

- Por isso, só se educa numa cultura, numa tradição, no meio de uma vivência, e para uma crítica. (Luigi Giussani “Educar é um risco”, Diel, Lisboa, 1998).

- O mundo hoje tem três atitudes importantes que contrariam estas ideias:

            1) tolerância, afirmando que não há critérios e, portanto, não há educação.

            2) ciência, procurando uma certeza abstracta e teórica, longe da vida.

            3) sedução, atraindo o cliente por todos os meios e anulando a crítica.

- A família numerosa manifesta estes três valores da educação de uma forma especial:

1) a família numerosa é um clan, afirmando o valor de uma tradição clara. À tolerância contrapõe o amor e a convivência fraterna

2) a família numerosa cria-se como um grupo social diversificado. À ciência contrapõe a experiência, uma vivência de sociedade desde o princípio

3) a família numerosa cria uma exigência, uma privação permanente. À sedução moderna contrapõe a escolha crítica, que forma o carácter.

- As famílias numerosas não se devem tanto preocupar enquanto clientes, como alunas do sistema de ensino. Essas dificuldades serão só mais algumas a juntar a todas as outras. O que as deve preocupar é a sua responsabilidade como professoras da sociedade.

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